O frio inesperado encapotou as senhoras que cumpriam suas listas de compras hoje de manhã. Eu também estava lá, bem agasalhado, selecionando as melhores cebolas. Pegava uma, apertava o fundo, o topo, e a descartava. Depois acertava com outra. Aí veio o pé de alface crespa, mais cara que a lisa, as duas bem mais caras do que mereciam custar. “É, a chuva atrapalhou tudo…”, pensei.

Passei rapidamente pela seção de frios, absorto. Topei com duas caixas de leite, um requeijão. “E o iogurte, será?” Foi o de pêssego, mais em conta. De um freezer a outro, cheguei nas salsichas. Desta vez, comprei. Já fazia tempo que não me indulgia num cachorro-quente, a mostarda e o pão francês.

Contemplei a geladeira meio cheia. Tomei o café. Tudo sem gosto, a sinusite voltou. Remédios. No computador, nenhuma missão específica, mas todas ao mesmo tempo. A pesquisa científica me intriga. “Afinal, somos descendentes diretos dos paleoíndios ou dos mongois?” Consulto duas ou três fontes, preparo alguns e-mails, replico para contatos selecionados e torço para responderem com brevidade.

É hora de almoçar. A cebola refoga enquanto eu corto o alho, lavo a salada, acompanho as notícias sobre o terremoto e o bife à milanesa no forno. Parece duro. Mais de 700. Tsunamis na costa. A ilha de Robinson Crusoé foi bem afetada. Comida pronta, sem gosto. Falta sal, falta tudo, mas dá para comer. Azeite salva. Mastigo com o pensamento estruturado à maneira de uma colcha de retalhos: pequenos quadrados de assuntos densos exigem a minha concentração ao mesmo tempo; não conseguem bons resultados – só me confundem, emocionalmente, intelectualmente. Tento uma pequena folga para não pensar, um chocolate lambuza as mãos.

Acorda o amigo e me encontra, na sala. Na cozinha, trivialidades. Complexidades. Festas, fugas, confusões amorosas, tragicomédia, fogão, geladeira, o espólio de tudo. Deixo-o envolvido em outra opção de cardápio para visitar uma livraria. No trajeto, um senhor caminha à minha frente com a barra da calça branca desfiada pelos passos. Parece ser sua melhor calça. Ao lado, parece ser seu melhor amigo, mas eles não se olham ou conversam. Subo três lances de escada e investigo as estantes atrás dos temas que me interessam. Passo três vezes pelo mesmo lugar. Uma mulher dorme com o livro no colo, outros acordam. Antropologia, História Geral. “Por que não há terminais para consultarmos nossos próprios livros?” Pego o celular: nenhuma ligação ou mensagem. Tento dissimular um ligeiro constrangimento com o atendente. Ele percebe, mas traz o pedido. Pergunto onde fica o livro, ele me responde com o preço. Não o interrompo. “Devo ter falado baixo mesmo.” Quatro livros, uma poltrona, muito barulho. Barulho demais me dá sono. Pesco duas ou três vezes. Era melhor ter ido a uma biblioteca.

Já em casa, 30 minutos ao telefone. Autenticidade é mais saudável se relativa. “Quero que seja divertido.” Momento hot-dog duplo. Como com barbecue. Tento ler uma revista enquanto acompanho o jornal. Não faço nenhuma das duas coisas bem. Tenho as razões para me concentrar, mas também para me dispersar. Pequenas pressões autoimpostas fazem com que eu não me sinta confortável com a ociosidade momentânea. Nem deitado no sofá, nem sentado. Não funciona. O mesmo parágrafo lido cinco vezes começa a fazer sentido. Termino a matéria, largo a revista e vou encerrar os quadrinhos reminiscentes de Craig. Com os retalhos dele, recolho os meus e produzo este texto.

Foram cinco anos de emprego fixo, vá lá…

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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