Na casa daquele vidraceiro aposentado, sempre houve um sofá, um banheiro com pia e chuveiro e uma janela.

Dormia no sofá. Ao despertar, ainda tinha o hábito de tatear o chão à procura dos óculos de grau que não mais possuía.

Corria, então, em direção à pia do banheiro. Ali estavam suas lentes de contato. Principalmente pelas manhãs, precisava de um filtro espelhado para enxergar a vida. A visão acordava míope, distorcida e desacostumada com a realidade.

Já com os olhos envidraçados, ele se postava diante da janela para se distrair. Fazia daquele quadrado a sua televisão, e cuidava dele com o mesmo esmero que um dia dedicara ao seu trabalho.

Antes de avistar o que havia lá fora, ele usava a janela para olhar para dentro. Via o seu reflexo e, entre caretas e sorrisos, confortava-se com a companhia de um homem barbado, de feição grosseira, mas aspecto simpático.

No instante em que começava a se irritar consigo mesmo, abria a boca em uma circunferência perfeita e assoprava o seu hálito amargo contra a vidraça. A janela ficava parcialmente embaçada, e ele gostava de friccionar o dedo indicador naquele espaço para fazer desenhos abstratos.

Quando voltava a se cansar, recorria a uma flanela para deixar a janela transparente outra vez. Apoiava a testa no vidro e começava a observar. Vivia as vidas dos outros, com uma satisfação que essas pessoas jamais tiveram.

Saía para passear, entusiasmado, com a senhora paralítica e a sua enfermeira no início da tarde; chegava a ficar com as penas dormentes naqueles momentos. Esmolava com um mendigo sujo ao longo do dia, e então seu corpo passava a exalar decomposição. Preferia sentir o odor do álcool, que expelia da pele como suor sempre que assistia a um homem embriagado desfalecer sobre o balcão da padaria. Ainda comprava pães e doces com os clientes ao final dos devaneios. E desfrutava de tudo, alegrias e dissabores, com a paixão de um admirador curioso e inconsciente. Nunca fora tão feliz.

Em uma quinta-feira, no entanto, tudo mudou. A senhora paralítica não apareceu em sua cadeira de rodas. A enfermeira, sim, caminhou – porém havia trocado os trajes brancos e discretos por um vestido curto e decotado. O mendigo também estava irreconhecível com os cabelos engomados e um terno pomposo. Embora continuasse a mendigar. O beberrão agora comprava pães. Tudo era perfumado. A vida parecia fora de ordem à primeira vista.

À segunda, também. O vidraceiro cuspiu na ponta dos dedos para irrigar as pupilas e nem assim conseguiu recobrar a normalidade do cotidiano. Em poucos segundos, não haveria mais necessidade de repetir o gesto. Seus olhos logo lacrimejaram e encheram-se de água.

Com a experiência de quem bem conhecia as janelas, ele tirou suas lentes de contato subitamente. Sabia que seus olhos espelhados poderiam estar refratando a vida, e não refletindo. Mas não adiantou.

Não ousaria, contudo, impor a si mesmo uma reflexão mais profunda e abrir também a janela de sua casa. Conformou-se em esfumaçar o seu hálito contra o vidro e desenhar aquilo que gostaria de ver. Cansou-se rapidamente. Pegou a sua flanela e tentou limpar o que fizera. Foi então que percebeu uma mancha acinzentada na janela.

O vidraceiro não se sentia seguro para responder desde quando aquela sujeira estivera lá. Como ele poderia ter sido tão imprudente? A mancha tinha alguns centímetros apenas, mas chegava a arranhar tragicamente o vidro diante do homem.

Ele esfregou a janela de todas as formas que podia. Misturou produtos químicos. Até as lágrimas e o suor o vidraceiro usou para tentar exterminar a mancha, que aumentou ainda mais. Desesperou-se. Tateou o chão à procura de seus óculos de grau, em uma atitude impensada. Pisou sobre as lentes de contato, que há pouco arremessara no chão. Cortou os pés.

Socou a janela, em seu último ato em vida, e acabou consumido pelos estilhaços do vidro. Seu sangue deixou manchas profundas por todas as partes. Lá fora, uma senhora paralítica, um mendigo e um bêbado foram capazes de ouvir o estrondo causado pela frustração de uma pessoa como outra qualquer.

Como eles mesmos. 

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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