Beleza forma-se por grãos. 

Na descida sinuosa do igarapé, Martino sentia os poros de todo o corpo despudoradamente arrombados pelo calor. Se as famosas catedrais rodrigueanas lá estivessem, lá derreteriam. O úmido e o abafado embaçavam a visão.

Coincidência banal. Quando pequeno, Martino havia encontrado na margem do riacho um exemplar de O Ateneu. Passaram-se décadas e o pescador não conseguia – e também pouco queria – escapar da calmaria daquelas águas. De barba na cara, continuava analfabeto. E todos os dias seguia viagem no mesmo microcosmo com o livro de Raul Pompeia aberto na proa no barquinho, como se aquelas letras lhe dissessem alguma coisa.

Não aprendera juntar os fonemas. Lembrava personagem de Chico Buarque e Edu Lobo. Em seu estômago, letras de macarrão formavam poemas concretos. Mas sabia como ninguém ler os acenos de beleza que a vida dava a seus sentidos. Leme e timão para ele tinham como guia apenas o peito aberto. Com isso, brincando com o balaio de sentimentos sortidos do cotidiano, Martino variava as tintas para pintar seu próprio destino.

Nos dias de dor e solidão, descoloria fauna e flora a seu redor em preto e branco. Nos de euforia, bancava o expressionista explorando as cores fortes e vivazes do ambiente silvestre.

As últimas décadas enevoavam-se em tons cinzentos. Martino já havia perdido as contas de quanto tempo não via ou ouvia alguém nas redondezas. Há anos, eram apenas ele, o barquinho voadeira e o bendito livro mudo, que não lhe dizia nada.

Em uma manhã de cochilo-de-bigorna e embarcação nas mãos do divino, Martino acordou com uma leve trepidação. O desespero do despertar abrupto o fez engatinhar correndo para a frente do barco. Havia perdido repentinamente a visão. Naquele momento, os olhos tinham a mesma utilidade de uma cortina em casa que não bate sol e não tem vizinhos futriqueiros.

Pelo tato, Martino apanhou o leve corpo escorado no barco. Em uma retomada de vida, abriu os olhos deparando com uma chuva torrencial de borboletas infinitamente coloridas e aquela recém-nascida que lhe mostrava a língua em forma de alumbramento. Eram os grãos que formavam mais uma beleza.

 

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, e brinda a maior beleza de sua vida, sua afilhada Sofia, que completa 5 anos na próxima semana, com a estupenda Grains de Beauté, de Céu

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