O trajeto tem inicio na Estação Cidade Universitária. O trem está com todos os seus assentos ocupados, mas o movimento é muito mais tranquilo do que o habitual. Pode-se ficar em pé sem esbarrar ou se esfregar em outras pessoas. Tiro o celular do bolso, olho para o relógio e percebo que já são quase dez horas da manhã. Estou atrasado de novo.

Hoje, estranhamente, o Rio Pinheiros está inodoro. Talvez seja a frente fria que passa por São Paulo. Em dias de sol, os raios quentes batem na água escura do rio e um fedor inacreditável invade as estações e incomoda todas as pessoas que tentam chegar aos seus trabalhos.

Coloco meu ipod para tocar músicas aleatórias. Experiências anteriores me provaram que um trem da CPTM sem trilha sonora pode se tornar um pesadelo. Tudo incomoda: o apito agudo que anuncia as estações e o fechamento das portas, as conversas em voz mais alta do que o tolerável, o locutor que cospe – com sua voz irritante e impositiva – leis de moral e civilidade para um bando de animais arrebanhados. Em resumo, uma absoluta sinfonia do caos que estressa e deprime ainda mais o paulistano.

Começa a tocar “Wonderwall”, do Oasis. Fazia um bom tempo que eu não escutava essa música. Ela é realmente muito boa, é impossível negar isso. Sempre penso no Noel Gallagher terminando de compô-la e gritando, como alguém que acabou de ganhar na megasena: “Puta que pariu! Estou rico, caralho!”. É daquelas canções impossíveis de não estourarem: “And all the roads that lead you there were winding/ And all the lights that light the way are blinding/ There are many things that I would like to say to you/ But I don’t know how”.

A música atinge os dois minutos e trinta e três segundos e eu começo a observar as outras pessoas. Boa parte delas protege seus ouvidos com fones de diferentes formatos e cores. A maioria, porém, olha para o nada. Uma jovem, calçando botas negras até o meio das canelas, bate, tediosamente, os dedos no vidro da janela do trem com os olhos caídos e prostrados. Um senhor curva-se para proteger-se do frio. Esqueceu a blusa e agora sofre com as rajadas de vento que entram pela janela semi-aberta.

Ao passar pela estação Cidade Jardim, percebo que seis pessoas estão compenetradas em livros. A primeira que observo é uma senhora, de aparentes 45 anos, cor parda e roupa simples, que está na penúltima página do livro infantil “Quem Tem Medo de Bruxa?”, escrito por Fanny Joly e ilustrado por Jean Noel Rochut. A cena me chamou a atenção por dois motivos: primeiro que eu li este livro quando era muito pequeno, devia ter uns oito anos. Segundo, que ficou claro que a senhora estava aprendendo a ler e aquela era, certamente, uma das primeiras histórias em que ela mergulhava. Sempre é tempo. Para tudo. No assento ao lado, uma menina loira da minha idade, de beleza discreta e corpo esbelto, olhava as páginas com o canto dos olhos e soltava algumas risadas quase imperceptíveis. Certeza que ela também já tinha lido “Quem Tem Medo de Bruxa?”.

O ipod sempre surpreende. Após as guitarras do Oasis, começou a tocar “Monólogo de Orfeu”, a declamação de um poema de Vinicius de Moraes que faz parte do clássico “Orfeu da Conceição”: “A existência sem ti é como olhar para um relógio só com os ponteiros dos minutos”. Gênio!

Enquanto a voz macia e sempre triste do poeta lançava frase genial atrás de frase genial, o trem chegava à Estação Vila Olímpia e eu decidi conferir o que as outras cinco pessoas estavam lendo. Um rapaz, na casa dos 20 anos, em pé na porta do trem e postado ao lado do banco da senhora que aprendia a ler, grudava os olhos em “Assim Falou Zarastruta”, de Friedrich Nietzsche. Ele estava já no meio do livro e eu me perguntava como era possível. Tentei ler essa obra aos 19 anos e larguei o livro com a promessa de só voltar a entendê-lo depois dos 30. Do lado direito, sentado, um rapaz devorava “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, que originou o clássico filme de Stanley Kubrick. O impressionante neste caso era o corpo curvado do cidadão, quase que mergulhando nas páginas do livro. Sua cabeça estava fixa para baixo, seu pescoço duro e os olhos vidrados. É fato que apenas o corpo dele estava no trem, a alma havia se entregado completamente aos personagens e à trama. Imaginei que, naquele momento, ele estava lendo o trecho em que o personagem principal invade uma casa, abusa de uma mulher e a mata utilizando uma estátua em formato de pênis gigante. Tudo na frente do marido dela. Realmente fica difícil não se render ao absurdo da cena descrita e esquecer o mundo externo.

Um detalhe interessante: as pessoas que liam estavam concentradas no mesmo canto do trem. Não entendi bem o motivo, mas parece que inconscientemente elas se uniam no mesmo local. Dei uma volta pelo vagão todo e apenas aqueles seis, um bem próximo do outro, portavam livros. Do lado do leitor de “Laranja Mecânica”, um homem pardo, de vestes simples e rosto duro, iniciava a leitura de “Uma Vida com Propósito”, uma obra cristã de auto-ajuda de Rick Warren, o livro mais vendido nos Estados Unidos em 2003. Uma tatuagem meio borrada no braço, escondida pela manga da camisa, denotava uma possível passagem daquele leitor pela cadeia. Ele com certeza buscava algum propósito.

A linha auto-ajuda realmente faz sucesso nos trens paulistanos, uma moça bem acima do peso, com os cabelos porcamente tingidos de loiro, lia com os lábios cerrados a obra “O Vendedor de Sonhos”, de Augusto Cury. Ela lia um trecho, fechava o livro, lia outro e tornava a fechá-lo. Não parecia muito concentrada. No banco oposto, trajando um lindo vestido roxo e uma meia-calça preta, uma morena, de corpo estonteante e rosto com traços grosseiros e queixo afilado, apoiava nos joelhos um livro enorme, com mais de mil páginas: “Introdução ao Direito do Trabalho”, cujo autor não consegui identificar. A caminho do escritório, a advogada sabia se vestir muito bem e parecia bastante estudiosa. Só não sei até agora se ela era realmente uma mulher.

O trem parou na Estação Morumbi e eu desci. Meu ipod tocava “Evil”, do Flaming Lips: “I wish I could go back/ Go back in time/ But no one ever really can/ Go back in time”. Sai feliz em direção ao meu trabalho. Em uma viagem de vinte minutos, normalmente entediante, havia conhecido de alguma forma a personalidade de seis pessoas. Às vezes, por meio da observação, o ser humano se desnuda muito mais do que com uma simples conversa. As palavras se tornam desnecessárias. Aquilo que as pessoas lêem no trem diz muito sobre elas. Rostos anônimos, assim como o meu, que ganharam vida conforme eu os percebia. Ás vezes, a vida pode ser bem interessante.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e está lendo “Fama & Anonimato”, de Gay Talese, pelos trens da cidade

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