Estou preso dentro de uma caixa. Meus braços e pernas estão amarrados com cordas grossas e resistentes. Está escuro, estou sufocado, o calor aumenta de acordo com os meus picos de nervosismo. Preciso sair daqui, preciso sair!

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O tempo passou rápido, minha barba cresceu, minhas unhas estão maiores. Estou há meses tentando me soltar. O atrito do nylon da corda com a madeira da caixa produz um ruído que está me deixando maluco. Mas eu não desisto, preciso me soltar.

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Consegui! Consegui! Meus braços estão livres, posso movimentá-los livremente. Que alívio, Deus, que alívio. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Apesar de ainda não conseguir sair da caixa, posso desamarrar minhas pernas. Sou um homem livre!

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Continuo preso nesta caixa apertada, não consigo sair. Estou sufocando. Preciso sair daqui, preciso sair! Mas essa madeira é resistente, não adianta esmurrá-la. O calor aumenta, meu desespero aumenta, estou cansado. Sinto-me sufocado. Penso em desistir.

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Consegui! Consegui! A caixa se rompeu, meu esforço não foi em vão. Posso levantar. Minhas pernas doem, o corpo dói, mas estou livre. Que alívio, Deus, que alívio. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem livre!

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Essa cidade é muito pequena. Não tenho nada para fazer aqui. Sinto-me entediado e preso. A vida parece sem graça, as coisas acontecem, mas não me causam nenhuma emoção. Estou cansado. Preciso sair dessa cidade, preciso sair. Sinto-me deprimido, asfixiado pelo tédio.

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Consegui um emprego na Capital. Estou livre dessa cidade que me apequena. Agora tenho espaço para crescer, serei um homem livre em uma cidade moderna. Estou empolgado demais. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem livre!

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Essa cidade maluca me desespera. Não aguento mais esse trânsito, a violência, o stress. Sinto-me sozinho como nunca, esmagado pelo tamanho dessa cidade, esmagado pela impessoalidade que ela impõe. Preciso encontrar uma companheira, uma mulher que me ame e me queira bem, com quem eu consiga construir algo realmente bonito.

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Consegui a mulher perfeita. Ela me entende, ela me ama e me dá tudo que eu preciso. Sinto-me aliviado com ela, a pressão da cidade não me desespera, a vida parece mais leve. Eu a amo como nunca amei ninguém. Vamos morar juntos, já alugamos um apartamento de dois quartos. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem feliz e apaixonado.

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Sinto-me sufocado como nunca me senti antes. Essa casa não me pertence, talvez essa não seja a mulher da minha vida. Olho para os lados e não me reconheço mais neste lar. Essa cidade impessoal me é cada vez mais estranha. Meu casamento está por um fio. Preciso de um filho. É isso! Precisamos de um filho para harmonizar o lar.

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Ela conseguiu engravidar. Já dá até pra ver a barriga. Que alegria. Teremos nosso filho no início do próximo ano, vai ser tudo perfeito, tudo tão incrível. Seremos uma família feliz. Estou empolgado com a ideia de ser pai. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Serei pai!

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Estou triste, sufocado. Minha mulher engordou, eu não sinto nenhum tipo de atração física por ela. Ela está inchada, chata, gorda e só fala merda, só reclama. Eu a odeio. Sinto-me preso, não posso deixá-la, pois ela está esperando um filho meu. Mas como eu queria voltar aos meus tempos de solteiro, quando a cidade inteira esperava por mim, quando eu era realmente livre.

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Nosso filho nasceu! Que maravilha, é um menino como eu sempre sonhara. Tudo é tão perfeito. Nosso lar ficou mais vivo, a cidade ficou mais viva, volto a sentir algo forte por minha esposa. Vamos recomeçar e tudo vai dar certo. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou pai!

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Não durmo há dias. Estou me sentindo péssimo. O moleque não pára de chorar e o meu estresse cresce cada vez mais. Estou preso, sufocado. Não posso fazer mais nada por minha conta, o menino depende de mim e eu não posso deixá-lo. Como queria abandoná-lo na porta de qualquer lugar. Ele chora alto, o dia todo, a noite toda. Estou cansado. Preciso me mudar.

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Parece loucura, mas acabo de me divorciar e estou me mudando para a Europa. Juntei dinheiro suficiente para sumir da vida de minha esposa e deixar meu filho. Sinto-me livre, vou conhecer os lugares que sempre quis, vou conhecer outras mulheres. Estou empolgado. Não me lembro de ter me sentido tão bem na vida antes. Sou um homem livre!

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Não conheço ninguém neste país. O frio me castiga, não aguento mais a grosseria desse povo, a impessoalidade. Aqui tudo funciona muito bem, mas sinto falta de meus amigos, da minha esposa, de meu filho. Estou cansado. Estou sufocado. Não sei o que é liberdade, não sei o que é felicidade. Nunca soube. E agora não posso voltar, não tenho coragem. O que eles vão dizer de mim? Quero voltar! Quero sumir! Meu maior desejo agora era estar preso dentro daquela caixa. Sozinho comigo mesmo. Tenho certeza de que lá me sentiria melhor do que aqui.

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Estou preso dentro de uma caixa. Meus braços e pernas estão amarrados com cordas grossas e resistentes. Está escuro, estou sufocado, o calor aumenta de acordo com os meus picos de nervosismo. Preciso sair daqui, preciso sair!

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André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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