De vez em quando eu viro noveleiro. Acho que é para reconhecer uma vida tão diferentemente feliz que as alegrias e tragédias herméticas de um Manoel Carlos. 

Algumas horas antes de postar este texto, a arrastada cena do beijo entre a cadeirante paraplégica Luciana e o médico-pajem Miguel. Entre milhares de assuntos que poderia selecionar para escrever hoje, esse se distinguiu. A cena – e suas sequências – não poderiam ter sido mais inverossímeis. A começar pelo beijo, que, por si, é o pontapé. (Cuidado, digressão!) Ele é o atalho para uma trilha sem qualquer chance de retorno. A tensão sexual se evita, assim como as pequenas sutilezas ou grosserias precedentes, mas um beijo muda tudo. A verdade é que, se um beijo aparece, já vem com a força na medida exata para explodir naturalmente, em uma torrente de gozo irrefreável. E rápida.

Não dá para calcular tanto, como rolou na novela. Aquele beijo gestado durante diversos capítulos de amor cozinhado irrompeu de um jeito morno. Os personagens se olharam, um deles estabeleceu um monólogo/declaração de intenções, ao que o outro respondia com um meneio, um fio de lágrima, uma intenção. Claro que o contexto médico-ex-cunhado-paciente-ex-cunhada-paraplégica dá um justo peso dramático à cena. Mas com isso eu vi frustrada a intenção do autor de dizer que amar é para todos. Se a Luciana também pode amar, tem mesmo de ser tão difícil assim?

Aí, depois de se beijarem, instantes depois, as juras já são feitas com caráter perene. “Nos beijamos ontem, nos beijamos hoje e vamos nos beijar para o resto de nossas vidas”, diz a Luciana para a plateia familiar montada algum tempo depois. Depois de tanta preparação, uma ejaculação assim tão precoce? Esse amor de colmeia das novelas do Manoel Carlos cansa.

(Cuidado, digressão!) Quanto menos literalidade e metalinguagem conter o amor – ou o que quiser chamar – melhor.

Maneco, que tal rever o “O Escafandro e a Borboleta”? Dá para ver direto no YouTube.

Ricardo Torres vive a vida às terças-feiras para o Sete Doses

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