A entrevista publicada abaixo foi uma exclusiva que Edu Lobo me deu no dia de meu aniversário, 3 de fevereiro, em sua casa, no Rio de Janeiro, e foi publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 5 de fevereiro de 2010.

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Aos 66 anos, oito após Cambaio, o novo disco de Edu Lobo, 25º da carreira, tem o registro de quatro parcerias antigas dele com Chico Buarque, além de seis composições feitas por ele no passado e que ganharam agora letras de Paulo César Pinheiro. Na entrevista abaixo, dada pelo compositor anteontem, em sua casa em São Conrado, zona sul do Rio, ele fala do aneurisma que quase o matou há seis anos, do acidente que o impediu de compor em setembro de 2009 para o novo trabalho e de seu envolvimento com as canções mais tristes.

 

Oito anos após Cambaio, como surgiu este disco?
Saindo do estúdio eu perdi o equilíbrio e caí da escada. Quebrei o cotovelo e um osso chamado escafoide. Toco piano, mas violão ainda não porque preciso de força. Exceto o meu primeiro disco, para quase todos os outros eu faço 3, 4, às vezes 5 músicas porque o disco pede. Esse eu não pude sequer tocar violão, e quando eu não toco, eu não faço música. Ao contrário do Ennio Morricone, que é um cara que admiro muito, mas ouvi uma bobagem que ele disse, que você só pode ser chamado de compositor quando escreve direto na partitura como ele. É uma coisa absurda. Deve ser ótimo você escrever direto na partitura, mas isso não faz de você melhor ou pior.

Por conta disso, então, você não pôde compor para esse disco…
Exatamente. O repertório que está nesse disco não entrou pra substituir nenhuma música, o que ia acontecer é que em vez de ter 12, talvez tivesse 16 ou 17 faixas. Esse aí foi escolhido porque eu queria que essas músicas estivessem aí.

Sua queda influenciou no resultado final do disco?
No sentido de ter mais músicas, sim. Tenho certeza que teria feito mais 3 ou 4, pelo menos. Mas não influiu no canto. Acho que é o disco em que estou mais próximo das pessoas, por isso que fiz questão de que, na capa, aproximasse mais minha figura, que estava meio distante, combina mais com outros discos que eu fiz, não com esse.

Pensando nesse distanciamento que vem lá de trás, por que você decidiu estudar no exterior depois de despontar nos festivais?
Porque eu queria muito estudar. No início da minha carreira, eu tinha vida de cantor. Na época era complicado fazer show porque o equipamento era muito pobre, eu não gostava daquilo, queria ter minha profissão. Eu sou compositor, mas não sei fazer música em hotel, em guardanapo, adoraria saber. Preciso ter meu canto, minhas coisas, é assim que produzo. O que faço é escutar muita música e sempre lendo a partitura. Eu tenho uma super coleção de partituras. Quando fui para os EUA estudar orquestração, criei esse hábito que pra mim hoje é, primeiro, um divertimento, e segundo, uma forma ótima de você estar sempre em contato com a música.

Após tantas marés, do que mais você sente saudade?
Do Rio de Janeiro que não existe mais. Eu me lembro das coisas que eu fazia. Tinha a época daquelas formaturas. Eu me lembro que a gente constantemente saía da festa e ia pra praia, às 5h da manhã, deitava e dormia, acordava com o barulho das crianças chegando com as babás. Imagina hoje em dia se alguém pode fazer isso? Se você acordasse já estava no lucro, se acordasse com a carteira seria um milagre.

Hoje você tem medo da morte?

Passei por ela há pouco tempo, com pouca chance de sobreviver. Mudou minha vida, algumas coisas ficaram diferentes. Uma doença dessas não tem lógica. Um acidente de carro, por exemplo, você pode lembrar da freada do caminhão, pode tentar reconstituir. Eu estava sentado aqui em casa, pedi comida japonesa e fiquei achando que eu estava passando mal por causa daquilo. Aí tive uma dor de cabeça que não dá pra explicar porque tinha rompido algo aqui dentro da cabeça. Depois de um tempo você tenta reconstituir a história, mas a vida não é lógica. Se eu tivesse alguma crença, que não tenho mais, talvez teria uma relação diferente com as coisas, mas acho que a gente acaba, quando morre. Você deixa um trabalho, é o que fica, porque, de maneira geral, é tudo pó.

Em relação a esse trabalho que fica, qual a função da música?
Tenho uma tendência a gostar mais das baladas, das canções mais tristes. Porque acho que elas duram mais tempo. Lembro que me diziam: “você vai gravar essa música? Não toca no rádio, é muito pra baixo, tem que botar uma mais pra cima”. Não concordo, acho uma bobagem. As tristes ficam mais, você precisa ouvir mais pra poder aproveitar.

E hoje em dia, as pessoas baixam muitas músicas e mal escutam…
Eu conheço esses sites, e não acho que seja uma coisa espetacular ficar baixando música. Isso vai ter que ser resolvido em algum momento. A Internet vai ter que existir, mas vão ter que pagar ao baixar música. Eu baixo porque tem milhões de músicas minhas lá. Mas não parei de comprar disco.

Sobre as músicas mais tristes, Tantas Marés é cheio de baladas, de músicas dolentes…
Mas não acho que seja um disco triste. O anterior, Meia Noite, era. Em Tantas Marés eu não sinto isso mesmo. É um disco de vários sentimentos.

Você acha que o artista tem de ir pra mídia e falar de tudo como se fosse especialista? Falar de sucessão presidencial, por exemplo?
Já achei isso, me envolvi numa época da minha vida, achava que uma canção podia mudar o mundo, o que é ilusão.

Mas naquela época você fez as músicas de cunho social…
Era o momento. O Arena conta Zumbi foi uma experiência espetacular, foi meu primeiro contato real com o teatro.

Hoje seria bobagem?
O que eu sempre achei muito chato era o que se chamava de “música de protesto”. Eu me lembro do pessoal de teatro que tinha uma letra, tal, mas a música era uma merda. A primeira turnê que eu fiz, pela Alemanha, cheguei lá e me apresentavam como o “Bob Dylan brasileiro”, esse negócio me incomodava muito. Nunca foi isso. Eu sempre gostei do Bob Dylan escrevendo as letras, não sou apaixonado pelas músicas, nem pelo canto dele, nem pelo violão, mas “Bob Dylan brasileiro”? Esses rótulos me incomodavam, não sou compositor de protesto, sou compositor e ponto.

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, e brada por todos os ventos que Eduardo de Góis Lobo é  um dos maiores revolucionários da música brasileira

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