Os pés de Roy McClayne, calçados por um par de botas vermelhas, balançam impacientemente. Deitado sobre uma espécie de maca suspensa, a parte superior de seu corpo repousa no colchão, enquanto suas pernas se quedam livremente no ar.  Veste apenas um short preto, deixando à mostra o peito suado, recheado de músculos e tatuagens. Olhos cerrados, respiração firme e compassada. Concentrado.

No vestiário, além da maca no centro, a luz opaca e insuficiente ilumina parcialmente os ladrilhos beges das paredes e os pisos brancos e encardidos do chão. Pendurados no teto, alguns sacos vermelhos balançam suavemente. O silêncio, entrecortado pelo pingar das duchas e chuveiros, confunde-se com os gritos excitados que vez ou outra explodem do lado de fora.

“Estou prestes a fazer a luta da minha vida. Roy, olha o quanto você sofreu para chegar até aqui. Todas as horas de treino, acordar quase de madrugada, o tempo longe da mulher e do filho, o suor… Roy, hoje é seu dia, o dia de mostrar que você é um homem com honra, alguém que pode mesmo ser um vencedor. Se você ganhar hoje, Roy, continua sendo o campeão mundial, mantém seu cinturão e sua dignidade. Pense Roy, pense. Todos os meses para isso, para subir naquele ringue e ganhar”.

Uma voz impositiva e rude diz que está na hora. Com um salto rápido e ágil, Roy levanta-se, flexiona as pernas, ensaia alguns aquecimentos e executa pulos curtos e intensos. Distribui socos no nada: o atrito entre seus punhos e o ar reproduz um som seco e sibilante. Estica os braços e o treinador, cuidadosamente, enrola tiras de pano em suas mãos. Em seguida, luvas vermelhas são apertadas e amarradas com força. Bate com raiva no próprio peito, solta grunhidos incompreensíveis e se enxuga freneticamente com uma toalha amarela com as iniciais RM em preto. Roy é escoltado por três homens fortes e de expressões frias pelos corredores que levam ao ringue. A platéia explode.

“Olha quanta gente veio te ver, Roy. Essa é a hora de entrar naquele ringue e manter sua honra. A vida nunca lhe deu presentes, Roy, você deve tudo ao boxe: a mulher que você conquistou, o filho que você está criando e a casa em que você mora. Se não fosse o boxe, Roy, você ainda estaria naquele bairro pobre e sujo, não seria ninguém”.

Em cima do ringue, Roy corre de um lado para o outro, ergue os braços para o alto e é ovacionado pelo público. Frente a frente com seu opositor, prefere não olhá-lo nos olhos. Pende a cabeça para baixo e se concentra na cintura e nos braços de seu adversário.

“Não olhe nos olhos dele, Roy, não olhe. Ele é só seu adversário, não é um ser humano. Aqui, ele é só um monte de carne e osso que precisa ser superado para sua vitória. Não o humanize, Roy, não olhe nos olhos dele. Ele é seu inimigo, seu opositor, o homem que você precisa derrubar para vencer”.

A luta começa. Os dois boxeadores se estudam. Iniciam uma dança coordenada e ensaiada: enquanto um executa passos para frente, o outro recua o corpo para trás. Permanecem por alguns segundos, gingando com graça e agilidade. Roy, com a cabeça baixa, parte para cima de seu adversário, que se defende como pode, interceptando os socos com suas luvas negras e brilhantes. Os dois começam a suar. Rondam-se, com destreza, como urubus sem asas em volta do alimento que acaba de apodrecer.

“O boxe é como a vida, Roy. Aguarde uma distração de seu oponente e o destrua. Se não é ele, é você. O que vai escolher? Você merece esse título, treinou meses, não dormiu durante noites. Mas e ele? Ele também não treinou, ele também não merece? A vida também é como o boxe. Alguém vai ficar com o cinturão, com a honra, o outro vai ficar na sarjeta, envergonhado por não ser mais um homem. O boxe é como a vida e pode ser cruel. Não olhe nos olhos dele, Roy”.

Roy, deslizando seu protetor de boca com a língua de um lado para o outro, continua observando fixamente a cintura e os braços de seu adversário. Ao ver a guarda do oponente abaixada, precipita-se rapidamente e acerta em cheio o rosto do homem negro, careca e forte à sua frente. O adversário, meio abobalhado, abraça Roy com força, apoiando-se em seu ombro como quem pede um afago. Ao se desenroscarem, Roy olha profundamente para os olhos de seu opositor. Arrepende-se. Abaixa o pescoço e chacoalha rapidamente a cabeça, em uma tentativa de desintonizar a imagem que lhe invade o cérebro. O gongo toca, a luta reinicia…

7

ESCURIDAO…


…1, 2, 3… Roy só consegui ouvir o juiz abrir contagem. Em estado anestésico, sente-se bem. A sensação é de conforto, de relaxamento, de um sono gostoso que não se concretiza. Repousa a face direita no trabalhado do ringue e deixa os pensamentos de lado. Mas logo toma consciência do que está acontecendo. Apóia as luvas no chão e se levanta lentamente, sustentando-se com o resto de lucidez que lhe sobra. Após dois segundos, suas pernas se dobram e seu corpo enorme desaba novamente no chão. Lúcido, fecha os olhos e se entrega às tentações do desistir.

“O pior não é perder uma luta. O pior é ter que passar novamente por aquele corredor e observar o olhar de pena das pessoas para mim. O pior é perder minha honra, é não conseguir olhar na cara do meu filho e da minha mulher. O que posso fazer? O boxe é um jogo com regras, regras que a vida não tem. O que será de mim agora? O boxe é justo, a vida não. Mas o boxe é parte da vida. E tudo que é parte da vida, de uma forma ou de outra, simula suas injustiças. Roy, você não deveria ter olhado nos olhos dele”.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e quase desistiu deste texto após perdê-lo. Esta é uma segunda e menos espontânea versão

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