Machado de Assis nos apresenta, em um de seus contos mais sérios, como o diabo começou sua Igreja. Esse diabo é orgulho e esperto – embora não, como de praxe, imbuído de sabedoria. Apesar disso, não é um ser ridículo, vermelho e com chifres, mas um verdadeiro anjo caído, com belas asas e trânsito no Paraíso. Parece com o Satã de John Milton.

 O diabo se cansa de realizar pequenas desconstruções da Criação. Decide organizar e tornar eficiente sua própria doutrina. Legitimar o hedonismo, a fraude, a traição a mesquinharia e, principalmente, o egoísmo em cada pessoa. Sua Igreja cresce e se espalha pelo mundo.

 No entanto, para sua decepção, com o tempo, ele descobre, aqui e ali, um usurário que secretamente adota crianças abandonadas. Ou um vigarista que, disfarçado, faz trabalho voluntário aos domingos. Logo sua Igreja passa a ter os mesmos furos e defeitos da Igreja do Senhor.

 Não bastasse o fracasso, recebe de Deus um sermão a respeito da complexidade do ser humano, igualmente capaz das maiores baixezas e dos mais singelos, nobres e desinteressados gestos de compaixão. É uma história de tom estranhamente otimista, se comparada com o conjunto da obra de Machado de Assis.

 Já Saramago nos mostra certo livro em que os modernos homens são inundados pela brancura em seus olhos, como o fundo de uma vasilha de leite. Homens que não enxergam como o diabo. Incapazes de ver os outros, e especialmente sua própria sujeira. Homens mais simples, planos, fragmentados.

É curioso como Saramago, criando um mundo gravemente insuportável, prescinde do Capeta. Adota um retrato mais realista que Machado de Assis. Tem sido mais fácil chegar ao absurdo.

 Talvez se Machado de Assis pudesse hoje ler o “Ensaio sobre a cegueira”, ou tivesse a oportunidade de dar uma volta por aí, descobrisse melhor material para a Igreja de seu diabo.

 Ou o diabo é simplesmente que estamos todos cegos.

 André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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