O dia nasceu para ela nublado, mas quase azul. Tão brutamente doce, a menina. Aos 6, 12, ou 14, tanto faz, ela está na primeira série. Todos parecem estar na primeira série. Depois de certa dificuldade para enxergar, as pupilas se ajeitando, ela olha ao redor. Cada qual em sua cama, diante de sonhos e penúrias. São pequenos adultos, de 6, 12 ou 14, tanto faz. São seus amigos, seus irmãos menores e maiores. Precoces na ciência dos dissabores da vida.

Quando recobra a consciência, sente um sorriso chegar como um presente de Natal. Este domingo é um dia mais dotado de cor que o normal. Ela troca o pijama pela camisa desbotada, entra em um shorts, calça o chinelinho de dedo e sacoleja em direção à porta. Ouve uma voz de comando com a ordem para tomar o café. No caminho, esquiva-se da rasteira de um garoto, dá um pontapé certeiro em uma bolinha de plástico e ajuda o bebê a vencer os degraus para chegar ao refeitório.

Um pão com margarina e muitas porções de histórias: “não falo com a Paulinha, adoro a tia Deise, a merenda boa é de terça, meu pai pegou o indulto, prefiro vôlei, o juiz negou a adoção, morreu de velho na prisão…” O cardápio é variado e a experiência de vida suplanta a ficção. Uma foi achada em um barraco com os irmãos, um cachorro, montes de fezes e urina, restos de toda sorte. Outra prefere ficar com a mãe, que é viciada e obriga os filhos a pedir dinheiro nos semáforos, mas sabe que é melhor ser adotada. Uma terceira é um travesti adolescente, que dissemina discórdia, boicota atividades e lidera sem rumo, comportamentos tão intensamente destrutivos como a sua própria carência.

Saber um pouco sobre cada tragédia pessoal não a deprime. Pelo menos não hoje. Ela tem uma oficina de artes pela frente. A monitora chega, se apresenta e começa a explicar como fazer as pulseiras. Parece fácil. É. “Qualquer criança pode fazer.” A manhã e a tarde transcorrem rapidamente, enquanto um grupo customiza blusas, outro pinta e constroi bilboquês de garrafa PET, origamis, mandalas de papel, três rapazes grafitam seus nomes em uma grande cartolina e muitas crianças gritam, pulam, correm, se atiram nos braços dos adultos, ingerem um pouco de amor. Ela assiste a tudo isso feliz, mas não está radiante. Seu semblante é de resignação. Ela já aprendeu cedo, aos 6, 12 ou 14, tanto faz, que a felicidade é um episódio.

Em um orfanato, criam-se muitos limites. Os valentes autores e executores das regras e imposições são punidos com a indiferença infantil de todos os dias. Algumas crianças podem ser energicamente muito reticentes. Mas isso diminui muito nos dias de atividades com grupos de voluntários. O esforço coletivo – saudável, generoso, desprendido – tem hora para começar e acabar, o que o torna irremediavelmente honesto. Transmite conhecimentos, valores, oportunidades. Não dissemina a caridade, mas democratiza a alegria.  

Conheça o trabalho dos Amiks.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses.

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