O homem nasce sozinho, vive sozinho e morre sozinho. A frase é um clichê. Fácil de entender, mas difícil, quase impossível, de ser sentida de fato. Ser sozinho é fácil, sentir-se sozinho é que é complicado. O homem costuma achar que entender algo é o mesmo que sentir. Talvez seja um de nossos enganos mais primordiais. O sentir não possui uma linguagem específica, um idioma que o caracterize. O máximo que conseguimos é nos apropriarmos de símbolos na tentativa de representarmos o que sentimos. O que é amor? O que é ódio? O que é indiferença? Entender o que eles são é fácil. O difícil é tentar explicar, com palavras, o que é senti-los. São sensações que ultrapassam nosso conhecimento consciente e trafegam em um local desconhecido, primitivo, que não possui linguagem, tempo ou sentido definido. Ser e assumir-se sozinho é fácil. Sentir-se sozinho, ao contrário, é o maior terror pelo qual podemos passar.

Para não se sentir sozinho, o homem inventa mecanismos de defesa que o façam acreditar que está sempre acompanhado. Totalmente saudável. Criam-se daí as formas de identificação do ser humano. Quando você se torna adulto entra em algumas dessas esferas de identificação, seja no seu emprego, em suas crenças, no seu time de futebol, no seu casamento ou em suas ideologias. Porta-se de forma a integrar-se a um grupo, mesmo que ele pareça fragmentado, para se sentir parte de algo. Gosta de determinado estilo de música, torna-se um workaholic, um vagabundo, um defensor da natureza ou um subversivo. Tudo para não se sentir sozinho, tudo para se integrar a um grupo com o qual você se identifica e que lhe tire a angústia do desamparo. Tem coisa pior do que se sentir despersonalizado? Desintegrado?

A religião, neste aspecto, é o exemplo histórico mais claro da busca pela integração. Cria-se um Deus – que pouco importa a mim se existe ou não -, regras eclesiásticas e, dessa forma, temos um grupo unido que acredita nas mesmas crenças, nos mesmos sentidos para sua vida. Unem-se, abraçam-se, e não se sentem desamparados no absurdo a que foram despejados quando nasceram. Uma tribo, um grupo de adoradores de cavalos ou qualquer outra coisa do tipo tem um objetivo parecido com esse. Na verdade, tudo tem esse objetivo, mesmo o Sete Doses. Queremos nos integrar com as pessoas com quem nos identificamos, queremos nos unir para não nos sentirmos desamparados. Se a vida tem algum sentido, é esse.

Acontece que muitas vezes a coisa se torna patológica. A fé em determinada coisa – seja em Deus, na bossa nova ou na adoração por sapatos – transforma-se em uma obsessão que cega a razão e o pensamento humano. A eleição de um Papa, detentor do poder de representar Deus, é uma dessas distorções da realidade. Deus, como sabemos, é perfeito. Ele não possui as fraquezas humanas. É uma idealização daquilo que nunca poderemos ser. A única imperfeição do ser divino, portanto, é ter nos criado. Ele, seguindo a lógica católica, criou também o homem Joseph Ratzinger, que foi eleito seu representante na Terra.

Como Joseph Ratzinger se sente com tamanho poder? O poder cega. O Papa, como a maioria dos poderosos, está cego pela sua ilusória onipotência e grandeza. Ele é o centro do maior movimento religioso do mundo, ele é um rei da fé. Ele comanda bilhões de pessoas pelo mundo, ele faz discursos ao redor do planeta. Se tem um ser humano que não pensa estar sozinho é Bento XVI. Ele só pensa. Por que, isso é certo, ele se sente só, como no fundo todos nós nos sentimos, mesmo quando rodeados por bajuladores. E é esse sentimento, que nem ele mesmo reconhece, que o impulsiona a fantasiar-se de Papa e fazer discursos sobre um Deus que sempre foi – respeitando a fé de cada um – muito mais imaginário do que real.

Não duvido da fé e da boa vontade dos Papas que passaram pela História, apenas os considero megalomaníacos. Homens que, apesar de todo o conhecimento que adquiriram ao longo da vida, abriram mão da realidade e se fixaram em sua própria grandeza. Um Papa sempre está preso em si mesmo, como qualquer um que inventa um mundo de fantasias interno para suportar a dor de estar só. Mas quando temos a noticia de que Bento XVI, em um passado próximo, acobertou e protegeu um padre pedófilo essa fantasia começa a incomodar (leia aqui). A loucura tem limites. E a loucura oficializada, como é o caso de Papas, reis e ditadores, é ainda mais assustadora por demonstrar o estágio primitivo do estado psíquico da maioria dos seres humanos. (outro exemplo da loucura humana institucionalizada foi o julgamento da menina Isabella). A loucura, cada vez mais, transforma-se na normalidade.

Por que o Papa protege um pedófilo? Ele é malvado? Não. Ele simplesmente apresenta uma patologia que o impede de enxergar qualquer coisa que não abençoe seu ponto de vista. Ele protege por dois motivos: não acredita que um padre, sagrado em seu ofício, possa ser pedófilo e, principalmente, por querer resguardar a imagem de seu reinado. Se a igreja católica é acusada de pedofilia, se ela perde sua moral histórica por conta de um escândalo, o Papa também perde seu poder. Se ele perder o seu poder – e esse medo é frequente e constante – ele ficará sozinho. Ao ficar sozinho existe o perigo de ele começar a se sentir sozinho. Esse, como eu disse antes, é o maior terror do ser humano. Ninguém quer ter essa sensação.

Mas o que o Papa não sabe é que ele nasceu sozinho, vai viver sozinho e vai morrer sozinho. O que ele está fazendo? Fugindo desesperadamente dessa verdade. Ele foge como todos nós. Mas a fuga de Bento XVI alcança níveis alarmantes, de um egoísmo que não enxerga o próximo. O que o Papa precisa é se sentir só para perceber que o mundo vai muito além das verdades absolutas que ele aprendeu a seguir com o seu grupo de identificação (leia-se Igreja Católica = dogmas e verdades criadas ao longo da história pela imaginação humana com o intuito de fugir da tão dolorosa verdade de que somos todos sós). Homens que reconhecem e se sentem de fato sós executam um passo importante para se tornarem um pouco mais normais.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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