Acho bonito, ainda que corporativista, o luto por gente boa que se foi, como o Glauco e o Armando Nogueira. Muitos se associam à unanimidade de ícones para compartilhar a dor – genuína ou oportunista. Outros só sofrem mesmo. De qualquer maneira, a sorte dessa gente é ter espaços nobres para dividir a perda.

Quem não tem, administra a dor de algum outro jeito.

Se vivo, meu avô já teria ultrapassado os cem anos. Quando ele morreu, minha avô se preparou. Vestiu uma calça e camisa pretas e assim ficou até o fim de seus dias, alguns anos depois. Ela nem se permitia sorrir. Penalizava-se, tomada de culpa cristã, por qualquer desleixo no seu purgatório. Morreu saudosa do passado.

Se vivo, nosso amigo LP teria ultrapassado os 25. Quando ele morreu, ninguém se preparou. Nem antes, nem depois. Ainda não estamos preparados, talvez nunca estaremos. Ele morreu, e nós ficamos saudosos do seu futuro. Sobre ele, o amigo Fábio Jardim escreveu e propagou aos mais chegados:

Não está resolvendo. O tempo está passando e eu me encontro dormindo pior, ficando mais triste em vez de mais forte. Não quero abrir as feridas de ninguém, mas as minhas precisam parar de sangrar e eu não conheço outro jeito de fazer isso que não seja esgotando a tristeza. Vou ter que piorar antes de melhorar.

Daí, este texto.

Eu me lembro de ter escrito algo para o efeito de “eventualmente nos separamos e isso é tragédia e triunfo”. O chute na nuca que foi a partida do nosso amigo me fez rever essa idéia e abraçá-la com mais força ainda. A única certeza de todo o contato humano é que perderemos uns aos outros, poucas vezes por escolha própria. Esse conhecimento devia ser mais presente, talvez o bastante para que evitássemos algumas brigas e pequenos egoísmos. Mas somos humanos, e seguimos implicando, tendo prioridades fúteis e adiando o encontro com essa verdade perene: somos todos passageiros. Temos alguns círculos ao redor do sol para tecer nossa teia de convívio com aqueles abençoados com a nossa presença. Alguns fazem isso melhor do que outros.

(…)

Nosso amigo era especial; todos o somos, para alguém, em alguma medida. Ninguém é uma ilha. O Luís Pedro foi mais notável pela universalidade com a qual tocou a todos, da turma da balada ao pessoal mais quieto, aceitando-nos e deixando-se amar com uma facilidade quase acidental. Podemos dizer (e dissemos) que ele nos deixou porque viveu com tamanha intensidade, porque trilhou um caminho tão completo. Dói-me não concordar. Amigos, se amanhã o Sol se apagasse e nos lançasse no breu do limbo, ninguém iria dizer “mas ele já criou os planetas, a vida, o ecossistema, o escambau”. A vida é feita de começos, e enquanto algo possa começar, haverá esperança de que perdure e tenha sucesso. Por isso eu digo: queria, precisava ver o Luís Pedro formado, profissional, pai, amigo, avô. A vida é feita de amanhãs construídos em cima de ontems. O que é a morte senão a suspensão, indefinida, do amanhã? Eu choro o futuro, do qual eu esperava fazer parte, que não vai mais acontecer. E não há nada de errado em chorar por esse ou qualquer outro motivo. E chorei um pouco por mim mesmo. Pelas coisas bonitas da vida que eu gostaria de poder lembrar, pelas coisas questionáveis que eu gostaria de poder retirar, e pelas coisas serenas que eu gostaria de poder dividir.

O teste agora é conosco. Certas coisas na vida são como uma bóia; podem nos ajudar durante um tempo, mas se alguém as retira consegue apenas nos mandar ao fundo do rio, indefesos. Cabe a nós provar que o Luís Pedro nos melhorou, nos tornou nadadores mais fortes com a sua passagem. É hora de aprender, novamente agora e vezes mais no futuro, que para seres finitos como nós, a única saída frente à vastidão de um universo incompreensível que segue adiante com ou sem nosso consentimento ou presença é através do amor.

Ricardo Torres tenta purgar seu luto às terças-feiras com a ajuda do Sete Doses

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