Não matutava muito. Com o facão abria clarões no matagal para chegar nem sabia onde. A cada passada de lâmina nos caules, a cada seiva jorrada, era como se aproximasse a chegança a um lugar desconhecido e desejado. Era descoração danado. Era peito a vácuo de tão oco. Era Judião.

Tinha dia que cruzava tanto o rio de lá pra cá que o azul do céu virava preto. Por mais que vez ou outra passasse por sua cabeça a vontade de dormir embaixo da terra, refugava. Nos dias de banha-lágrima, era tanta enchente nos olhos, que Judião buscava a beleza das pequenas coisas para alimentar a alma. Era o que restava, pois o corpo já tinha desencarnado havia tempos.

Furta-cor de asa de borboleta, pêlo eriçado de filhote indefeso, salto de peixe enxerido que mete cabeça pra fora do ribeirão, peregrinação de folhas em formigas, e uivos noturnos de fazer arrepiar careca. Era disso que Judião subsistia. Era caboclo de viver com pouco e encher o peito com leveza de ar-de-pluma.

Só sabia daquele labirinto de bicho e planta. Vivia naquela prisão por puro consentimento. Ir dali por quê? Talvez fosse hora mesmo. Era a primeira vez em um infindar de décadas que Judião deparava com pegadas que não as suas ou dos animais. Seguiu os passos como carta de navegação em primeiríssima viagem.

Quando chegou ao fim da rota, a cena e o som de deixar camareira no chinelo e arrumar a cama perfeita além de sete palmos. Aos contrapontos de “muito prazer” para A Lenda do Caboclo, de Heitor Villa-Lobos, Judião congelou a vista de nunca mais piscar. Era clarão de olho monumental. Foi um embaralhar de palavras de aprendiz de francês. É um enevoar de morrer de amor.

 

Lucas Nobile escreve todas às sextas para o Sete Doses com a convicção de que se Heitor Villa-Lobos tivesse composto apenas “A Lenda do Caboclo” já seria um gênio completo

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