Era uma vez uma senhora sentada há muitos e muitos anos num banco, que ficava no canto esquerdo de um caminho longo, linear, aparentemente sem fim em ambas as direções. Sobre o banco pairava, movimentando-se em um caminho circular, uma fonte de luz fortíssima e brilhante. Tudo o mais à volta era escuridão. Ao longe, do lado esquerdo e direito do caminho, e no horizonte à frente e atrás, viam-se outros pontos de luz. Dos mais próximos era possível perceber um leve movimento, vagaroso e uniforme, como o do que circundava a cabeça da senhora. Vista de longe, toda a área parecia uma gigantesca teia de pontos de luz interligados.

A senhora tinha um aspecto diferente. Seus olhos eram inteiramente brancos, mas a pele variava do tom mais escuro até o mais claro que existe. Em muitos pontos as cores simplesmente se misturavam e, com o passar do tempo, se deslocavam de uma região do corpo para outra. As mudanças preenchiam a mulher de prazer e dor.

Durante toda a sua existência, sofreu de câncer. Teve-o dos mais variados tipos, mas o desenrolar da história era sempre o mesmo. Grupos de células, fluidos, tecidos ou órgãos se diferenciavam e começavam a destruir os elementos que por eles passavam. Logo cresciam e se espalhavam agressivamente por seu corpo. Em um ou dois casos, achou que ia morrer. Milagrosamente, seu organismo foi capaz de resistir.

Ainda assim, nos últimos dias, ela chorava preocupada, temendo pelo seu futuro. Sentia uma grande parte de seu corpo dormente, desorganizado. Sua barriga estava gorda, inchada. A pele, de tão flácida, parecia estar derretendo um algumas regiões. Ao mesmo tempo, dores lancinantes e formas estranhas, incrivelmente bem delimitadas, apareciam salpicadas por toda a parte. Seu corpo reagiria?

A senhora se distraia e arejava a cabeça observando os pontinhos de luz ao redor, acompanhando o movimento delicado que realizavam os mais próximos. Haveria outras como ela, sob cada fonte de luz? Conhecê-las algum dia a tranqüilizaria.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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