Prostava-se a cada instante anterior à decisão que deveria tomar, das mais simples às mais hercúleas. Mastigar era das tarefas mais complexas, pois não se decidia pelo lado esquerdo ou direito da tétrica arcada dentária que levava consigo – reflexo da indecisão na higiene bucal. Estancava no medo de tomar banho, pois não lhe parecia normal eleger a cabeça ou as costas para o primeiro enxague. Sair à rua exacerbava sua insegurança, pois detinha-se nos paradoxos urbanos. “Lado direito ou esquerdo? Se ele levantar a cabeça, indico que vou pela esquerda… e se não levantar? Ela está triste, acho que vou pela direita”, aventava. Apesar do bloqueio, acabava por se inclinar ao que lhe parecia mais conveniente.

Naquela segunda-feira, mal abriu os olhos e percebeu-se tomado por uma crise aguda da patologia. Abrir os olhos foi talvez a única decisão que se permitiu. Deitado na cama com o rosto virado ao teto, braços colados ao corpo, cumpria só as funções vitais, sobre as quais não tinha controle. Inalava o suficiente, sentia o sangue ser bombeado, as extremidades irrigadas. A respiração curta e a completa ausência de mobilidade o afligiam, apequenavam o homem já encerrado em uma irrestrita insegurança. Ele também não pôde deixar de pensar. Relembrou o momento imediatamente anterior ao segundo em que tudo aquilo começou.

Quatro anos antes, fora o negativo do homem que se sabia no presente. Inconsequente, imediatista, impetuoso. Gabava-se em dizer que a coragem não é ausência do medo, mas a decisão de enfrentá-lo. Embora o dissesse, não conhecia o medo. Temia a morte e o amor. Pelo restante, decidia em segundos. Assim, ficou careca, cabeludo, praticou base jumping, fraudou o imposto de renda, apostou a poupança nos cavalos, trocou de empregos, de país, de paixões. Assumiu todos os riscos e os venceu. “Não é sorte”, replicava aos incrédulos, “é coragem”. Não encontrava ninguém que o equiparasse. 

Em setembro de 2000, aceitou o convite de seu editor e seguiu para Ramallah para registrar as imagens das turbulências que ficariam conhecidas como a Segunda Intifada. Após o recrudescimento da violência de Estado, irrompeu a violência civil. A atrocidade, captada pela lente da câmera, correu o mundo. Nos próximos dias, premido mais pelo espírito impetuoso do que pela necessidade de comunicar os fatos, voltou às ruas. Captou ataques aéreos de Israel, a explosão de homens-bomba, coquetéis molotov, crianças chorando, o fomento da raiva. Sentiu o cheiro dos cadáveres. A morte o rodeava por todos os lados, mas escolheu não se abater. Venceu, assim, um dos medos.

Cinco anos depois, já de volta a seu país, amargou o fim de um segundo casamento com uma outra mulher que nunca amou. As duas esposas o haviam amado por ele e por elas. Não reconhecia a necessidade de se casar por tal abstração e não consentia que lhe cobrassem por isto. Era pragmático; impassível na decisão de arrefecer o significado de qualquer relacionamento. Fazia-o por medo. Sentia-se inseguro sobre a possibilidade de amar, e assim, assistir à renúncia de sua própria natureza assertiva.

A contradição era o único tópico que o consumia. Ao evitar decidir pelo amor, anulava a coragem. Passou meses amargurado, ao fim dos quais se sentiu pronto a optar. Saiu com uma colega de trabalho que o fitava constantemente. Deixou-se envolver. Enveredou-se pelo caminho romântico que conhecia pela literatura. Emulava os gestos, as poesias, o sofrimento dos herois. Sagrou-se um dia, diante do espelho do banheiro, a mulher na cama inebriada de amor, nada mais do que um bom imitador. Decidiu tentar outras vezes, sem sucesso. Era o próprio ventríloquo.

A indecisão diante do amor passou a afetar a capacidade de escolha. Aflito, percebeu-se ao longo dos dias com discernimento decrescente. Estancava ao menor sinal de mudança em relação à situação anterior. Começou a se perder na própria angústia de não ceder.

Na manhã da crise, tudo isso lhe passou pela cabeça. Depois de decidir abrir os olhos, esforçou-se muito para escolher também outra coisa.

Sorriu por ela. Decididamente.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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