Estava decidido a matar alguém. Não poderia mais viver sem a experiência do morrer. Tatuou uma faixa preta em cada um dos lados da face, em sinal de batalha. Passou a vestir roupas cinza, para se camuflar em meio a postes, calçadas e paralelepípedos. Deixava a sua casa todas as tardes com uma pistola sobre a cintura, presa na cueca.

Quem seria a vítima? Aquele obeso engravatado? Sua acompanhante, tão gorda quanto? Não. Preferiu atirar no pseudo-intelectualismo.

Apontou a sua arma, ao longe, para um jovem de cabelos desgrenhados, barba por fazer, camiseta xadrez, óculos com aros escuros e sandálias. O rapaz fumava como uma donzela de filmes em preto e branco. A mão era mole, com o cigarro preso entre as unhas dos dedos indicador e médio. Tragava como se chupasse um sorvete, a ponto de fechar os olhos e esvaziar as bochechas por completo. Foi salvo apenas porque um doutor atravessou a rua naquele momento.

Era um doutor sem doutorado, certamente. O que também não dizia nada. Vestia um terno bem desenhado, com risca de giz e calça costurada com barra italiana. Andava de cabeça erguida, com óculos escuros, talvez para não enxergar ninguém. E foi assim, altivo, que esbarrou em um homossexual escandaloso.

Com os ossos à mostra em um corpo sem músculos ou gordura, o homossexual saltitava. Queria chamar toda a atenção possível para si, sem dúvida. E ganhou a condição de alvo em potencial para o atirador saciar a sua vontade. O tambor da arma ameaçou girar depois de um berro estridente da vítima, que abraçou uma amiga e ficou fora do campo de visão.

Era isso. A garota merecia aquela bala. Trajava roupas rosa, mascava chiclete rosa, tinha um sorriso rosa e provavelmente não sabia o que era uma rosa. Ele se impacientava só de imaginar a música que invadia a menina por dois pesados fones de ouvido. Percebeu um livro pender da bolsa rosa dela. Ele já havia lido aquela mesma antologia de banca de jornal.

Anoitecia. Fazia frio. A pistola ficava cada vez mais gelada em sua mão esquerda. O clima esquentou quando notou um garoto com corrente de prata à mostra e cabelos empinados na calçada. Aquele peito estufado estava à espera de um tiro. Se não partisse da arma dele, no futuro viria de outra.

Lamentou porque uma prostituta parou ali para oferecer os seus serviços e o desconcentrou. Ela tinha a boca suja por batom roxo e estava semi-nua. Já havia dado dinheiro àquela mulher. Ela não poderia morrer.

Não desistiria de matar. Continuou a sair de casa à procura de uma vítima ideal nas tardes que se seguiram. Repetiria o ritual até ser possível vivenciar a experiência da morte sem afetar a estrutura social. Talvez ainda tivesse a oportunidade de colaborar com a vida com aquela atitude. Desde que elegesse bem o seu alvo.

…..

Colocou o cano de sua pistola na boca. Sentiu o gosto de ferro sobre a língua. Estava certo de sua escolha. Pressionou o gatilho. Matou e morreu ao mesmo tempo.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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