Saiu do consultório com um diagnóstico, no mínimo, curioso.

– Vai ter que trocar mesmo, não tem jeito; vaticinou o médico.

– Como assim, trocar, doutor Venceslau? Não tem como fazer algum reparo mais brando?

– Não, o mecanismo está todo pifado. Fique tranquilo, a operação será indolor, você mesmo pode fazer.

Marcelino baixou a cabeça para o doutor Venceslau. Aquela careca lustrosa carregava mais de meio século de experiência medicinal. Era curandeiro que não diagnosticava. Veredictava.

Sendo assim, desmiolado, Marcelino saiu da sala de consultas obediente, em direção ao endereço apontado pelo doutor. Ainda preferia prontuários a obituários. Arrancou de lá angustiado, com o peso de elefante em corpo de formiga, insuportável.

Ao chegar no destino apontado, deu-se com um terreno sem fim. Uma montanha empilhava-se ao fundo aterrando ilusões dos desenganados que ali aportavam. De onde Marcelino estava, o mundaréu de troços amontoados longeava tanto que não dava para distinguir seu conteúdo. Tudo era borrão de gente.

– Porque cargas d’água o doutor Venceslau me mandou para esta porra de lixão?

Era questão de se chegar. Já de pé firme, Marcelino andarilhou pelo descampado. Perto do monte, a surpresa em desvarios. A pirâmide formava-se por cabeças abandonadas. O rapaz pensou: “Como um lugar desse ainda não foi decoberto? Isso é genial. É só vir aqui e servir-se da cabeça que precisar!”.

Pelo celular, decidiu oracular com Venceslau.

– Doutor, posso escolher qualquer uma? Como faço pra arrancar a minha?

– Meu caro, fique à vontade, esbalde-se. Pense bem, a primeira “segunda-cabeça” a gente nunca esquece. Você é um insensível mesmo… Nunca passou a mão no pé da nunca? É só desrosquear, Marcelininho.

O celular despencou da mão esquerda quando o homem passou a outra nos trilhos que rodeavam o pescoço. A atual e futura antiga cabeça encheu-se de pensamentos e intenções em seus últimos respiros de vida. “Poderei roubar bancos e sair ileso”. “Me envolver com quantas mulheres quiser sem ser surpreendido pelas garras de mamãe”. “Poderei escolher em embonitar e enfeiar quando me for conveniente”.

Era opção a dar com o pau. Marcelino não sabia se era mais afoito que criança em loja de doce ou ninfomaníaca em sex shop.

Depois de horas escalando a montanha cabeçuda, escolheu seu modelo. Desrosqueou o antigo e encaixou o novo. Ainda meio troncho e mambembe nos instantes iniciais, foi morro abaixo, cambaleante.

Inegavelmente, ficara esquisito pra caramba. Precisava de um espelho de corpo inteiro para ver tamanho descalabro. Estranheza apenas nas primeiras horas. Com o passar delas, o corpo foi proporcionalmente acompanhando as formas da nova cabeça e harmonizando aquela criatura.

Marcelino não era bobo. Escolheu o novo modelo para agradar a esposa. Há tempos ela vivia lhe sondando sobre a possbilidade de se relacionar com outra mulher. Por isso, o rapaz optou por aquela cabeça ostentando um rosto feminino deslumbrante. Por consequência, tomou o corpo de uma puta gostosa.

Ligou para a cônjuge no caminho a fim de evitar enfartes. Mil maravilhas. Em casa, fez a festa da esposa em um bacanal lesbiano insaciável. Banhou-se, colocou um vestido emprestado de sua mulher, o mais agarrado possível, e partiu para o retorno com o médico pistoleiro. Enfim, com a antiga cabeça pelas tabelas, conheceu a faceta suíte do consultório do doutor Venceslau.

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses

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