Em 1973, distraído com um cortador de grama, Waldir Azevedo perdeu parte do dedo anelar esquerdo em acidente doméstico. Depois de ser levado às pressas para o hospital por sua mulher, a falange resgatada da lata de lixo de sua casa foi implantada. A saúde estava fora de risco, mas os médicos sentenciaram que ele jamais voltaria a praticar seu ofício: tocar seu instrumento. Anos depois, Waldir retomou as atividades e o sucesso com a composição Minhas Mãos, Meu Cavaquinho.

A volta foi por paixão. Caso tivesse se aposentado após a fatalidade, o cavaquinista tranquilamente já teria garantido seu lugar na galeria dos imortais, ao lado de Jacob do Bandolim e de Pixinguinha. Tudo porque, na virada da década de 40 para a de 50, Waldir não apenas havia estourado nas paradas e vendido milhões de discos como também tinha mudado a história de um instrumento e de um gênero musical. Não por fazer temas aprofundados e dotados de beleza descomunal, mas por criar melodias de fácil assimilação popular, colocando o cavaquinho em seu devido lugar, lá no alto.

Após 14 anos na companhia Light, no Rio, flertando com o acaso, ele fez com que o instrumento deixasse de atuar apenas como acompanhamento nos regionais para receber os holofotes de solista. Waldir se tornou ponta de lança da retomada do choro, e observou a disseminação de Brasileirinho, Delicado e Pedacinhos do Céu pela Europa, Ásia, pelos EUA, e, sim, pelo Oriente Médio.

Com mais de 30 LPs, sem contar os registros dos discos de 78 rpm – dos quais se tornou o maior vendedor de todos os tempos –, agora, quando se completam 30 anos de sua morte (dia 20 de setembro), ele ganha a homenagem e, o público, o presente. Em um país conhecido pela falta de respeito por seu patrimônio cultural, a Warner enfim dá um exemplo ao lançar Waldir Azevedo – Brasileirinho, disco triplo contendo sucessos e raridades do homem que popularizou o cavaquinho no Brasil.

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Haja estrela para, de maneira completamente despretensiosa, um sujeito não apenas estourar nas paradas de sucesso e vender milhões de discos como também mudar a história de um instrumento e de um gênero musical. Waldir Azevedo – Brasileirinho conta essa trajetória.

O ano era 1949. Depois de atuar em um regional cantando e tocando violão tenor, Waldir Azevedo não apostava no cavaquinho como o instrumento de sua vida. Em uma reunião familiar, Deoclécio, sobrinho de 9 anos, importunava o tio para que ele tocasse um pouco em um cavaquinho todo estourado, com apenas uma corda. Cedendo aos apelos do garoto, Waldir improvisou a primeira parte de um tema na única e capenga corda ré, a mais aguda.

À noite, seguiu para a Rádio Clube do Rio, onde fazia a base em regional da casa. Na ocasião, o violonista Dilermando Reis não pôde se apresentar e Waldir teve de improvisar novamente aquele tema. Era simplesmente Brasileirinho. No mesmo prédio ficava a gravadora Continental, dirigida por Braguinha, que, encantado e órfão pela saída de Jacob do Bandolim da gravadora, convidou o rapaz para gravar seu primeiro 78 rpm, vislumbrando em Waldir sua nova galinha dos ovos dourados. Com Carioquinha no lado B do disco, o cavaquinista vendeu milhões de cópias. Estava feito o estrago, logo na primeira composição de Waldir. E o estouro se repetiria com temas como Delicado, Pedacinhos do Céu, Vê se Gostas e Pisa Mansinho.

O primeiro disco da compilação, Brasileirinho, agora lançada, traz os maiores sucessos da carreira de Waldir Azevedo. Gravações mais antigas, que evidenciam a originalidade dele como um verdadeiro hit maker.

Já o segundo CD, Brincando com o Cavaquinho, traz um Waldir mais maduro como solista, fazendo miséria com o instrumento vindo de Portugal e popularizado por ele aqui, depois de seus antecessores até hoje esquecidos, como Mario Álvares e Nelson Alves. Destaque para Cambucá (Paschoal de Barros), com a qual Waldir ganhou um concurso de calouros, aos 20 anos, e as emotivas Amoroso (Garoto e Luiz Bittencourt) e Sentido, de sua autoria.

Por fim, o terceiro disco, Flor do Cerrado, retrata o período em que o cavaquinista morou em Brasília, superando o acidente com o dedo e voltando à ativa com novas parcerias, como Cordas Românticas (ao lado do citarista Avena de Castro) e Contraste (com o violonista Hamilton Costa), até morrer em 1980, após um aneurisma abdominal.

O álbum triplo, que contou com belíssimo trabalho de pesquisa, ajuda a preservar a herança de um compositor genial, que pode não ter chegado aos rincões mais distantes deste País continental, como fez Villa-Lobos, mas retratou tantos Brasis com seus choros, baiões, maxixes e valsas brilhantes.

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses. Nas horas vagas brinca de tocar seu mini-violão de quatro cordas. Deixando aqui o clamor a Fernando Macedo por um podcast em tributo ao mestre Waldir

* Matéria publicada originalmente no Caderno2 (O Estado de S. Paulo) no dia 05/04/2010

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