O eterno retorno acabou com o meu direito de ir e vir. Ele fica me fazendo pensar e voltar. Sempre aos braços do livro de ponta cabeça na minha estante de vidro. Ele fica lá me olhando e perguntando onde está minha coragem de ir mais adiante. Deixa disso, você já foi tão longe. Você é tão corajosa. Mas é mentira, eu tenho medo de escuro às vezes, e eu durmo abraçada no Nemo – ele me faz sentir menos sozinha toda noite. Não importa para onde você vá, mudança faz parte de você.

Um dia no meu sono, a capa do livro me convenceu que essa minha mania de continuar com você na cabeça era questão de tempo ou de karma. Eu decidi apagar tudo. Joguei o livro pela janela, fui na macumba, no guru, no psicólogo, no curandeiro. Todos disseram a mesma coisa, que você não estava mais aqui e que isso era bom.

O curandeiro foi mais cruel, disse que aquela não era mais eu. Onde foi parar aquela menina que gostava de suco de morango? Mas apagaram meu ipod e só sobrou uma música. Wanna be Sedated. Ele me disse que ia comprar 99 balões vermelho. E depois de eu perguntar por que não 100, ele disse que isso era o punk. Lá nos braços das Marlyns estampadas na parede, eu sorri e lembrei que a vida não é repetição. Que o eterno retorno não tá com nada e que eu precisava ver o CBGB mais uma vez.

Ana Luiza Ponciano escreve aos sábados no Sete Doses

Anúncios