Coloquei meus binóculos e procurei alguma coisa em que minha alma pudesse descansar numa espécie de visão tridimensional. Luzes derretidas e nuvens carregadas de cinzas foi o que avistei a priori. Mas meus olhos foram puxados, rapidamente, como por um imã, para uma janela simples e grande com traços do passado e aspirações à esperança… Era uma academia de dança e as bailarinas estavam em cena. Ajustei meus binóculos como quem coloca uma chave na fechadura dos portais do surrealismo.

As bailarinas a essa hora faziam seus percursos sensuais solitários… O imã a que me referi anteriormente era uma loirinha de blusa rosa que nem um grande poeta romântico iria acreditar… Só poderia ser ela! Ela pulava e levantava suas singelas pernas como uma mulher pronta para a morte e para o parto. Ela devia ter uns dezenove anos e nem devia saber o que estava fazendo (ou não). Os portais ficariam abertos até o final da inocente aula e, ELA, a bailarina, desfilava seu eletromagnetismo enquanto deslizava e purificava o mundo do seu tédio inesgotável diluído em pílulas de felicidade temporárias vendidas nos comerciais de TV. Mas ela não tem nada a ver com isso tudo (pelo menos nos momentos em que está com seu justíssimo uniforme branco e rosa).

Com aqueles movimentos ela era dona do tempo. Pessoas viajam mil quilômetros para adorar seus ídolos que estampam as capas dos jornais depois de receber críticas tecnomaníacas de críticos muito técnicos e ainda muito mais maníacos. E eu ali com a bailarina desconhecida tendo um momento sagrado e solitário num portal surrealista com movimentos abstratos… Todo mundo deveria ter uma academia de dança ao alcance dos seus olhos… Ou dos seus binóculos…

As leis rouaseiládoque são contra o amor. A aula acabou. Nesse momento ela abriu a porta e saiu… Com a porta fechada, ela já deve estar preocupada com todas essas coisas triviais da vida – faculdade e futuro e casamentos e chamadas perdidas no celular e satisfazer as expectativas da família e concursos públicos e… Nãoooo! Concursos públicos não deveriam tocar a Dança Da Vida Da Dona Do Tempo. O mundo é muito cruel com aqueles que não olham no fundo dos seus olhos. Será que ela está preparada para ver alguém adentrar pelos portais (ou portas) da sua inocente aula de ballet e raptá-la? Porque essa era minha vontade. Mas nos levar para o mundo real seria a maior crueldade que eu poderia fazer. Depois de dois anos dizer para ela que o importante é a amizade e o companheirismo, e todas essas baboseiras que todos sabemos, mas odiamos saber, seria muito difícil… O melhor a fazer é sentir seu perfume à distância e deixar que a vida diga isso para ela das suas maneiras… Ah, mas o que sei eu sobre a vida? O que sei sobre bailarinas?

Nada além da minha ingênua visão tridimensional…

André Esposito Roston publica o último texto dessa série mensal de Thiago Cicarino para o Sete Doses nesta segunda-feira.

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