Dedos entrelaçados, mãos pequenas próximas à boca. Fábio, de joelhos no beiral da cama, quase não a alcançando, sussurra o “Pai Nosso” de olhos fechados. Nunca soubera ao certo porque fazia aquilo. Aprendera com a mãe e agora nem precisava mais dela para cumprir o ritual. Tinha seis anos. Naquela noite decidiu pensar com quem conversava. Parou de sussurrar, abriu os olhos e fez cara de interrogação. Aquela seria uma dúvida que o atormentaria para o resto da vida.

A primeira vez que tomou a hóstia, no dia de sua primeira eucaristia, Fábio sentiu um gosto de nada em sua boca. Perguntou-se, apesar de cumprir o ritual, qual era a razão daquela bolacha sem gosto ser considerada sagrada pelos homens. Aos doze anos, continuava sem entender os motivos que o levavam a comparecer todos os domingos à missa. Aqueles santos, o homem fantasiado que dizia sermões, os coroinhas com cara de sono, as pessoas que cantavam a plenos pulmões os cantos. Sempre fora, no contexto eclesiástico, um peixe fora d’água.

Aos dezesseis anos, quando sua mãe já havia o inscrito para a crisma, resolveu se posicionar.

– Mãe eu não vou fazer crisma. Eu tenho dúvidas sobre a existência de Deus.

– O que você está me dizendo? Desde quando você não acredita em Deus?

– Não disse que não acredito, só tenho dúvidas. Desde os seis anos penso nisso, quando percebi que minhas preces não eram atendidas. Você não percebeu que parece que estamos rezando para ninguém? Que Deus pode ser tipo Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa?

– Como assim? Você não acredita em nada superior? Então pra que tudo isso? Qual a razão do mundo e da vida se não tiver um ser superior nos olhando?

– Sei lá, mãe. Eu gosto de jogar fliperama, de ficar na Internet. Não sei. Gosto de batata frita, por exemplo. E não disse que não acredito, só tenho minhas dúvidas. Não é saudável?

– Você está fora de si! Vai fazer crisma, sim! Você não consegue casar se não fizer. Depois, você segue o que quiser, mas a crisma vai fazer.

– Mas eu não sei se eu quero casar, mãe.

– Deus existe e acabou! Vai fazer crisma, sim senhor.

Contrariado, Fábio frequentava a crisma com má vontade e sem nenhum compromisso. Matava as aulas e era tido como o menino malvado da classe. Tomou gosto por duvidar de Deus e resolveu estudar. Foi à biblioteca municipal e aprendeu com Friedrich Nietzsche que Deus estava morto, leu “O Ser e o Nada”, de Jean-Paul Sartre, e percebeu que Deus tapava os buracos existenciais humanos. Aprendeu com Freud que a crença em Deus era provavelmente uma ilusão infantil do pai ideal e que a religião não passava de uma neurose universal. Entendeu que o homem crê em Deus para não enlouquecer diante do absurdo. Leu os livros da moda que negam com veemência a existência de Deus e percebeu que a fé no ateísmo pode ser tão religiosa quanto a própria crença que os autores atacam. Sentiu-se triste, mas ainda não estava convencido. No fim, tomou a decisão de investigar Deus por sua conta e risco.

Como surpreender Deus? Como encontrá-lo e provar ao mundo a sua existência? Onde estaria o criador do céu e da terra? Ele era mesmo invisível? Fábio decidira que descobriria tudo e não pouparia Deus no caso de sua inexistência. Queria descobrir, queria tirar a sua dúvida. Mas suas ferramentas eram poucas, resolveu se contentar com um trabalho de pesquisa. O primeiro homem que procurou foi o padre da igreja de seu bairro.

– Padre, tenho tido dúvidas sobre a existência de Deus. Existe alguma prova irrefutável que ateste que Ele criou o mundo.

– Você está duvidando da existência de Deus, meu jovem? Você está bem? Isso me parece uma loucura de sua parte. Você nunca leu a Bíblia? Deus criou tudo e isso é impossível de negar. Se não fosse ele, quem seria?

– Eu já li a Bíblia sim, padre, me parece um romance muito sábio e bem escrito, com histórias fascinantes. Mas lá não existem provas, é só uma história.

– Você está louco! A Bíblia é o livro sagrado, não pode ser contestada. É pecado!

– Mas por quais motivos não posso duvidar?

– Pare de pensar sobre isso, menino! Deus existe e acabou!

Fábio anotou a conclusão de seu primeiro interrogatório e resolver ir conversar com um professor da faculdade de seu bairro, famoso e desdenhado por se proclamar ateu.

– Professor, tenho dúvidas sobre a existência de Deus. O senhor tem alguma prova irrefutável de que Ele não existe?

– É óbvio que Ele não existe. A ciência avançou, sabemos que o universo foi criado a partir de uma explosão e de que o homem é originário dos macacos.

– Mas existem muitas coisas na vida sem explicação. O que faz uma planta crescer? O que faz a natureza agir? Quem comanda tudo isso?

– Garoto, leia os clássicos, os filósofos.

– Já li todos eles, mas nenhum tem uma prova. Os argumentos são geniais, mas preciso de provas, entende?

– Escuta uma coisa: Deus não existe e acabou!

Sua última entrevista seria com um filósofo famoso que negava a existência de Deus e que dizia ter provas disso.

– O senhor pode me apresentar essas tais provas?

– Claro, eu explico. O sistema epistemológico da existência, crucial para o entendimento endocompartimentado de uma sociedade em crise pós-moderna, tange o ser humano para um vazio de compreensão de seu processo meta histórico e de seu papel usurpador da razão. Todavia, o fato da religiosidade se pretender um resultado das partes pseudomencionadas nos obrigam a crer que a existência de Deus é uma invenção parapsicológica da mentalidade clássica, contemporânea e materialista.

– Desculpe, mas eu não entendi.  O que eu quero é uma prova.

– Garoto, Deus não existe e acabou.

Fábio compilou os dados levantados nas entrevistas e percebeu que todos os entrevistados afirmaram a mesma coisa, apenas com a mudança do ponto de vista. “Deus não existe e acabou”, do filósofo e do professor, contra “Deus existe e acabou”, afirmado por sua mãe e pelo padre. Eram essas as conclusões de seu estudo teórico. Terminada a segunda parte decidira: visitaria o Vaticano para um trabalho de campo. Por milagre, como se Deus o estivesse auxiliando, conseguiu uma conversa particular com o Papa. Tinha certeza que frente a frente com a maior autoridade religiosa do mundo obteria respostas para suas indagações.

– Senhor, Papa, tenho dúvidas da existência de Deus e estou realizando uma pesquisa sobre isso. Os especialistas ouvidos apontam dois pontos de vista: “Deus existe e acabou” e “Deus não existe e acabou”. Gostaria de um parecer mais detalhado.

– Leia a Bíblia. Está lá tudo que você precisa saber. Só isso?

– Mas eu acho que a Bíblia é só uma história maravilhosa. Alguns gênios do pensamento humano escreveram livros muito bons com argumentos sólidos duvidando do Deus que sua religião crê. O que tem a dizer sobre isso?

– Que o homem tenta explicar as coisas por meio de filosofias e ciências, mas sempre vai precisar de Deus.

– O senhor já leu esses pensadores? Eles parecem ter razão. Eles têm argumentos.

– Já li todos eles sim, são pessoas com conhecimento, mas sem fé. Quem não tem fé não tem nada.

– Por quê?

– Por que a fé move montanhas.

– Mas o senhor tem uma prova irrefutável da existência de Deus?

– Garoto, Deus existe e acabou!

– Muito obrigado pela ajuda, senhor Papa.

– Chegou a uma conclusão, meu filho?

– Cheguei, sim. Não sei se Deus existe e acabou!

André Toso escreve religiosamente para o Sete Doses aos domingos

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