A imaginação, muitas vezes, não tem condições de enfrentar a vida das pessoas reais.

– Acho que ele está prestes a dizer alguma coisa.

Era a décima quinta consulta do menino. A fonoaudióloga, a psicóloga e sua mãe adotiva estavam realizando os trabalhos do dia a três horas. Joãozinho tinha 6 anos. Ao que todos sabiam, nunca tinha dito uma palavra. Passou por diversos médicos. Concluíram que ele não tinha nenhuma alteração física na garganta. Tampouco foi identificada deficiência mental. Mas não falava. Até que, naquele dia…

– Tira essa merda de perto de mim!

A mãe deu um riso apressado, entre feliz e nervosa.

– Nossa, que coisa! Ele soltou uma frase inteira de uma vez! Mas… que coisa ele foi dizer!

A fonoaudióloga coçou a cabeça, séria, encarando com desconfiança a mãe. Aí tinha alguma coisa para se descobrir.

A pesquisa, realizada com a ajuda da polícia, rendeu luz sobre a curta história do menino. A mãe adotiva, afinal, não tinha culpa pelo prolongado silêncio do filho. A fonoaudióloga teve acesso ao relato contado pela freira que recebeu o garoto no seu primeiro dia no orfanato. O encontro com a mãe biológica foi rápido e brusco. Ela tinha os olhos injetados e cheios de lágrimas. Empurrou a criança de então 3 anos, que caiu de joelhos no chão, na direção da freira.

– Tira essa merda de perto de mim!

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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