Voltei a morar no bairro da minha infância, com feições de cidade pequena do interior.

Quando pequeno, na Vila Guarani, passava manhãs e tardes inteiras na rua, andando de patins ou jogando bola contra a rua de cima, tubaína no boteco, mandava entregar pizza em casa abandonada e comia no quintal sujo de poeira e mato incidental. Essas raridades.

De volta, começo a prestar atenção no tanto que mudou, a vendinha que cresceu, a outra que fechou, o dono do boteco que enlouqueceu, a rua que esburacou. Mas noto que o principal, o inesquecível, são os personagens que cruzaram o meu caminho tantas vezes. São muitos aqueles que ocuparam a minha cabeça infantil e ainda andam por aqui. Já não me reconhecem mais, outros eu não reconheço. Há ainda alguns que se foram, mudaram ou pereceram no que resolveram trilhar.

Em um esforço de repórter meio flanêur, vagarei em busca das histórias das histórias do Bituca, Jaburu, Bilé e o irmão Tiago, chileno leproso, Sêo Pereira, mãozinha, mecânico suicida, Papér, irmãos do bar, o clube Fumaça no Ar e outros de que não sei nem nome, nem alcunha.

Gente rica em humanidade, a quem prestarei as devidas homenagens, a partir da próxima semana.

(Ainda avalio se entrarei em reminiscências familiares, visto que posso arruinar muitas reputações. Como a de um tio que bebia querosene com leite para curar algum mal abjeto e pingava limão para limpar o olho.)

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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