Qual deles é o psicopata?

É teoricamente fácil perceber as características de um psicopata. São, basicamente, pessoas que não sentem nenhum tipo de emoção. A ciência e a filosofia ainda não conseguem explicar indivíduos que apresentam tal patologia: eles simplesmente nascem assim. A estrutura cerebral apresenta uma deficiência emocional natural. Além disso, o superego dessas pessoas – instância psíquica responsável pelos freios morais – é deficiente, quase inexistente.

Um psicopata não sente nada e não enxerga as pessoas ao seu redor. Para ele, os outros seres humanos são obstáculos que precisam ser vencidos: seu único objetivo é se dar bem e tirar proveito das situações. Para isso, ele usa as pessoas como “coisas” e não sente nenhum tipo de culpa. Quebrar um copo ou matar uma pessoa tem o mesmo efeito em sua emoção: indiferença. A frieza do psicopata pode resultar em assassinos em série – no caso daqueles que passaram por traumas violentos de infância – ou simplesmente na formação de pessoas extremamente egoístas (diferente do que se pensa, a maior parte dos psicopatas não é violento e passa despercebida). Todos eles parecem adoráveis à primeira vista.

Um exemplo recente de psicopata é Alexandre Nardoni, que ficou conhecido por ter jogado sua filha Isabella pela janela. Nos depoimentos e diante das provas, ficou claro que Alexandre é um psicopata por algumas razões. De acordo com as investigações, a madrasta de Isabella, Ana Jatobá, diante de um possível surto psicótico, acabou investindo e esganando a menina. Morta ou não, a decisão de jogar a criança pela janela foi de uma frieza típica de um psicopata. O emocional de Alexandre se viu ali diante de um problema que podemos entender com a ajuda do psicanalista francês Jaques Lacan.

De acordo com a teoria do gozo, de Lacan, todo sujeito encontra o gozo no outro. O psicopata também, mas ele não define o outro, ele apenas usa o outro como um objeto para o seu próprio gozo. Portanto, o objeto que dava o gozo a Alexandre (Ana Jatobá) estaria em risco com as consequencias da aparente morte de Isabella. Na frieza do psicopata, a escolha foi simular uma queda pela janela. Pegou a “coisa”, que na verdade era sua filha, e a jogou pela janela. Achava que salvaria a sua pele e a de seu “objeto de gozo” (esposa) ao se livrar da “coisa” (Isabella) que o atrapalhava.

E é assim: o psicopata trata tudo e a todos como objetos para o seu próprio gozo. Além disso, no depoimento, enquanto Ana Jatobá apresentava emoções desenfreadas (típicas de personalidades psicóticas, com emoções conturbadas), Alexandre não aparentava sentir nada (falta total de emoção). Quando tentou simular um choro, o próprio promotor percebeu que não havia lágrimas. E é quase impossível mesmo para um psicopata chorar: Alexandre só tentava criar um pranto artificial para se livrar da cadeia. Ele continuava só pensando nele e em como se livrar da situação.  Isso é comum nos noticiários quando um repórter, ao entrevistar um assassino que acabou de ser preso, pergunta a ele se está arrependido do crime. O psicopata, sem pestanejar, afirma: “Claro que me arrependo, estou preso”. Ele nem se lembra da vítima e do homicídio. Outro exemplo é uma resposta do Maníaco do Parque em seu julgamento. Perguntado como ele se sentia ao comer os olhos de algumas de suas vítimas, respondeu algo como: “Você nunca comeu jaboticaba? É a mesma coisa”. Para ele era realmente a mesma coisa.

A psicopatia já nasce com o indivíduo. Desde pequeno ele apresenta alguns sinais: violência com os colegas da escola, maltrato aos animais, frieza, sadismos e por aí vai. O Maníaco do Parque, por exemplo, praticava o mesmo crime na infância, mas com cachorros no lugar de mulheres. Quando adulto, apenas mudou o objeto de gozo, mas o ritual do crime prosseguiu o mesmo. Seria fácil para um pai ponderado perceber isso, mas o problema é que normalmente os pais não querem enxergar. Até pelo fato de que eles próprios apresentam fortes traços de psicopatia em suas personalidades: o filho, muitas vezes, está apenas realizando um desejo reprimido desse pai, que tomado pela pulsão inconsciente não faz nada para impedir. Exemplo claro é de Hitler. Um médico e amigo da família do ditador percebeu que desde pequeno havia algo de muito errado com o garoto. Procurou por Freud em Viena para que ele conversasse com os pais de Hitler e se possível ajudasse a compreender o que havia com o menino. Freud concordou, mas o pai de Hitler se negou veementemente que seu filho fosse tratado: “meu filho não é louco”, disse na época. O que teria acontecido com o mundo se o encontro entre o judeu genial Freud e o pequeno psicopata Hitler se concretizasse?

Infelizmente, a psicopatia não tem cura. A psiquiatria não possui remédios para ela e a psicanálise e a psicologia são inúteis neste caso. A única forma dos pais diminuírem as consequências de um filho psicopata é utilizando um grande vigor e tentando construir algum superego para o filho. O castigo aqui é necessário, não tem jeito. O psicopata precisa de leis e regras duras. O Exército e a Polícia, por exemplo, são refúgios comuns para psicopatas. Não que todos que estejam nessas instituições sejam psicopatas, mas uma boa parte deles segue esse caminho. Só que se pensarmos que, hoje, uma a cada vinte pessoas é psicopata, concluímos que elas estão por todas as partes.

E aí que a coisa começa a assustar. Os psicopatas estão espalhados por aí e são cada vez mais bem sucedidos em empresas e círculos sociais. A individualidade e a frieza da sociedade capitalista contemporânea têm criado condições para a construção de verdadeiras estruturas psicopáticas institucionalizadas. Se continuarmos assim, nossa sociedade se encaminha perigosamente para se tornar uma estrutura psicopata, onde o cada um por si seria a única regra (por pior que seja nossa atual situação, ainda estamos longe disso, tenha certeza. E a Internet dá uma esperança enorme para que isso não aconteça). O artificialismo das relações sociais auxilia o psicopata a ganhar terreno, sua falsidade se confunde com o puxa-saquismo e as mentiras de conveniência que todos utilizamos para obtermos algum ganho em nossos empregos e relacionamentos.

Em Brasília, nas instituições financeiras e religiosas, nas escolas e universidades, nas empresas e fundos de investimentos… Em todos os lugares o psicopata chega a postos de comando e é aceito como única alternativa. Deixamos-nos levar por essas estruturas com medo de não conseguirmos realizar nossos desejos (sejam financeiros ou emocionais). É aí que entra a parte psicótica inerente ao ser humano – todos nós temos um traço egoísta forte, muitas vezes beirando a psicopatia. Isso aumenta quando o mundo externo pressiona e atesta que são conquistas efêmeras que nos tornam vencedores. Enquanto não prestarmos atenção nisso, continuaremos engolfados por psicopatas que nos conduzem por uma vida egoísta e sem sentido comunitário. Enquanto isso, o RH das empresas, cheio de psicólogos formados em faculdades de fundo de quintal, estimulam características psicopatas para as contratações e promoções. Aos que não são psicopatas, é hora de tomar outro caminho. O primeiro passo: reconheça seu egoísmo e tente aprender a lidar com ele. Ou melhor, tente perceber quais são suas semelhanças com um psicopata. Elas existem, não adianta negar.

Obs: O texto acima foi escrito logo após uma mesa redonda que discutia a psicopatia do casal Nardoni, realizado na Sociedade Paulista de Psicanálise (www.sppsic.org.br)

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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