7h48min. Quinta-feira. Continua o sobe e desce mecânico dos usuários do metrô. As saídas levam do subsolo relativamente ameno para as ruas tomadas pelo inverno rigoroso da cidade.

Nas escadarias comuns, ao lado das apinhadas escadas rolantes, ela mal está lá, sentada, arqueada, no patamar que separa o lance inferior do lance superior de degraus. Mesmo acocorada, parece muito alta. Deve ter, talvez, 1,85. É grande e incrivelmente leve, esquálida, não aparentando menos do que 80 anos. Usa trapos frágeis, quase completamente inúteis para proteção contra esse tempo severo. Cobre a sua cabeça um pano azul, tão fino e desbotado que é possível ver seu crânio, completamente careca. Cada detalhe da sua figura marcadamente enferma reforça o frio da manhã. Mantém um dos braços parcialmente esticado, com a mão em forma de concha, na direção da passagem. Mas não pede nada, nem constrange ninguém com expressões de súplica. Na realidade, sequer se mexe. Só encara um ponto indefinido, atrás das pessoas, com os seus olhos azuis, lindos, preservados da decadência instalada no resto do corpo.

O que diabos faz naquele canto? É frágil e antiga. Velha e doente demais para ser perigosa, sacana, produtiva, durona, para prescindir de ajuda. É muito cedo – faz frio demais -, e muito tarde, para ela estar ali. É possível que o tempo não lhe tenha legado alguma indulgência? Como compreendê-la parada, completamente sozinha, nesse purgatório degradante, ridículo, entre o subterrâneo e o branco inóspito da cidade? É um pecado inominável. Não para os usuários do metrô. As pessoas são como o dia, geladas e mortas.

O comportamento dos transeuntes não deixa dúvidas: a compaixão pela condição humana precisa mesmo é de apelo estético. E essa senhora simplesmente não chama a atenção. Minha vontade é de matá-la nas escadas, escandalosa e violentamente. Ou de que se erga, grande e terrível, para punir a todos.  Que seus ossos cresçam grotescamente, como rochas, rasgando a sua pele e violando, mutilando, tantos quantos passem pelas escadarias. Se não pode despertar um mínimo de empatia, que cause, ao menos, pânico e terror.

Não. Na prática, há somente o que ninguém repara. Somente o frio que vem da superfície, penetrando agora mais profundamente no interior do seu corpo, os seus olhos azuis que se tornam vidrados, e sua mão que cai discretamente. São 8h14min, e se adensa o sobe e desce mecânico dos usuários do metrô.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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