Tocava muito bem na bola. Amaciava-a, pisava na esfera como se estivesse prestes a passear no céu. Prestasse cuidados extremos a um bicho de estimação muito querido e não seria a mesma dedicação. Mas era seu o brinquedo, de mais ninguém, o que irritava a quem integrava o mesmo time. Bilé era fominha, mas bom de bola. O boné na cabeça e o discurso maloqueiro denunciavam uma certa malandragem, não agradavam muito aos pais, mas os colegas da rua não se incomodavam.

O primo, Thiaguinho, também era boleiro. Não tinha o mesmo fino trato, mas era eficiente. Sempre que requisitado, marcava. Era menos moleque, parecia mais maduro, embora fosse mais novo que o primo. Tinha, porém, um jeito mais contido, poucas e educadas palavras. Dava-se bem com todos, nisso levava vantagem sobre Bilé. Prestava assistência à Dona Maria, a cuidadosa avó que os abrigava nos fundos do que chamávamos como cortiço. Na verdade, era a casa dos fundos de uma pequena vila de casas bem humildes, com gente acolhedora e prestativa.

Corremos e brigamos juntos muitas vezes. Invariavelmente, perdíamos os amistosos contra as ruas de cima ou de baixo e o culpado era sempre o Bilé. Injustiça minha. Aos 12 ou 13, capitão auto-empossado, não tinha ciência da própria arrogância. Xingava, gritava, indignava-me. No fundo, eu era exageradamente exigente e um péssimo negociador. Queria ganhar a Libertadores com o time do terceiro quarteirão da Vila Guarani. Enquanto outros amigos – que me são caros até hoje –, silenciavam sua mágoas, Bilé me enfrentava. Tinha personalidade, muito mais do que eu. Medíamos forças e talentos.

Depois do futebol, veio o patins. Bilé comprou seu par a muito custo, trabalhava esporadicamente e conseguiu juntar o necessário. Eu pedi um para os meus pais e fui atendido, mas com o modelo que deu para bancar. Sobre rodas, seguimos naquela guerra civil não-declarada, disputávamos cada milímetro do microperímetro da Rua Domingos de Santa Maria.

Thiago, nessa altura, parece que havia se mudado. Ignorava-se o paradeiro. Aparecia apenas às vezes, para visitar a avó, comportamento que foi rareando. Aliás, como todas as brincadeiras. Entramos no colegial, em transformação para o Ensino Médio, e as vidas começaram a deixar de ter intersecções.

Muitos anos depois, vejo o mesmo boné e os olhos oblíquos – duas pequenas fendas felinas. Acenei, nos aproximamos e rememoramos os bons velhos tempos. “O que anda fazendo?” – perguntei. “Faço umas entregas com essa van”, retorquiu, os modos mais maneiros, cordiais. “E Thiaguinho?”

Seguiu-se algum constrangimento. Hesitação. A voz meio trêmula: “Os traficantes mataram. Ele devia.”

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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