O jardim da frente da casa amarela era cercado de muros altos. Impossível enxergar o que havia lá fora. A grama verde, com cores vivas e bonitas, tornava-se uma ilha indiferente aos acontecimentos da rua. No centro do jardim havia uma cadeira de madeira vermelha que balançava lentamente com o vento, ziguezagueando pra lá e pra cá. A casa amarela estava fechada, portas e janelas cerradas, sem nenhum ruído. Parecia que ninguém mais morava lá.

A grama da casa amarela estava aparada. Sinal de que alguém por lá passara, de que havia alguém que ali morava ou ao menos a visitava. O silêncio do jardim engrossava conforme a tarde passava. De noite, quando o sol já havia partido, uma luz no centro do jardim iluminava foscamente a tudo: a  flutuante cadeira vermelha, os altos muros acizentados e as paredes amarelas da casa.

Naquela noite, a lua se escondera e as nuvens se espalharam macicamente pelo céu. Junto ao sopro lento do vento, iniciou-se um pingar suave de chuva. Gotas esparsas quedavam na grama fofa e verde do jardim da casa amarela. De forma despercebida, ergueu-se da terra um forte cheiro molhado. Os pingos raros salpicavam nas pequenas poças que se formavam. No centro do jardim, as luzes do pequeno poste rabiscavam com precisão os traços de água que caíam do céu.

A cadeira de madeira se tornara de um vermelho rubro, com cores que saltavam aos olhos. Em pouco tempo, observando as pernas do móvel, era possível enxergar uma corrente de líquido vermelho escorrendo fluentemente. A grama se tornava vermelha. Aos poucos, metro por metro, as cores alteravam-se em toda a extensão do jardim. A cadeira, agora quase incolor, balançava freneticamente conforme o vento suspirava.

A chuva apertava, os pingos salpicavam sobre o vermelho da grama e formavam poças rubras e profundas. De forma gradual, o cimento cinza do muro tingia-se de vermelho. A cor subia lentamente, até que tomou conta das quatro enormes paredes que cercavam o jardim. O poste, antes negro, também se preencheu de vermelho. A luz branca da lâmpada passara a refletir uma luz vermelha e brilhante, que, por sua vez, era derramada sobre o jardim de gramas vermelhas, sobre o muro de cimento vermelho e, parcialmente, sobre as laterais da casa amarela. A tinta vermelha, agora, direcionava-se para a casa, mas, antes de alcançar sua estrutura, quedou-se no buraco de um ralo próximo à entrada.

A chuva passara a ser tempestade. A água corrente que caia fez o vermelho que tingira a grama desaparecer, em seguida tornara os muros novamente cinzas e o poste voltara a ser negro. As gotas caiam pesadasas do céu. Rapidamente, a casa amarela empalidecera. Sua cor escorria pelo chão e também se quedava em um ralo próximo à porta. Por sob o amarelo da casa, estampava-se um vermelho desgastado pelo tempo. O mesmo vermelho da cadeira, da grama, do muro e das luzes. O ralo afogara-se em amarelo: não deu conta de tamanha enxurrada. A tinta se dirigia lentamente para o centro do jardim, passara sinuosamente pela grama e encontrara os pés da cadeira pálida. Devagar, o amarelo subia pela estrutura da cadeira preenchendo sua cor desgastada com um amarelo vivo e tenaz. A chuva cessou, o vento amainou e a cadeira amarela prosseguiu a balançar.

Na manhã seguinte, Hélio suspirou ao ver o que havia ocorrido com a casa:

– De novo! De novo! Não é possível! – desabafou aos berros.

A filha de Hélio, embasbacada, não acreditava que aquilo havia ocorrido de novo:

– Papai, não é possível, quem faria isso? Tirar toda a tinta da casa e de novo pintar a cadeira com a mesma cor que era da casa? Isso é absurdo!

– Mas, filha, você não enxerga? Quando comprei a casa a pintei de verde e a cadeira era marrom. Aí, algum engraçadinho tirou a tinta da casa e a cadeira se tornou verde. Aí pinto a casa de vermelho e a cadeira fica vermelha. Pinto a casa de amarelo e aí está a cadeira amarela.

– Olha o tamanho do muro, ninguém se arriscaria tanto apenas para fazer uma piada dessa e, além disso, nunca roubaram nada?

– Foi quem, então? Deus?

Hélio, impaciente pega o celular do bolso e faz uma ligação.

– Alô?! É o seguinte, Gérson, vem para cá na casa onde meus pais moravam. Quero que você traga tinta azul para pintar a casa. Ah… vou querer também que você aumente o muro em mais dois metros. Que diabos, é claro que tem que ser hoje!

– Pai, não fica bravo. Imagina que a vó é a cadeira e o vô é a casa e que eles ficam tentando se unir pelas cores…

– Fica quieta, menina! Endoidou? Será possível que criança só fala bobagem?

– Sei lá, sabe pai, o vovô gostava tanto da cadeira, a vovó gostava tanto da casa… Ela ficava na janela, ele balançando na cadeira. E ficavam se observando por horas. Eles se amavam tanto…

– Para de falar asneira, pelo amor de Deus!

– É, desculpa pai, só tenho saudades deles… Podemos pintar a cadeira e a casa com as mesmas cores?

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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