Era a terceira vez só naquele sábado.

A casa ele dividia com uma companheira esquizofrênica, muito mais nova, que ninguém sabia se era sobrinha, enteada, filha adotiva ou ex-moradora de rua. Fato é que ela o acompanhava na dura rotina de um senhor aposentado instalado em uma residência estrategicamente posicionada na pequena área do gol visitante. A laje frontal transformada em quintal era acessada por uma escadaria, estranhamente sedutora aos nossos chutes imprecisos. Como o portal permanecia trancado, Sêo Pereira não aguentava mais ser incomodado pelas súplicas das crianças pela devolução da bola. Azar, o dele.

Aos olhos infantis, o que Sêo Pereira tinha de antipático, a mulher tinha de louca. Por vezes ouvíamos gritos e discussões. Embora não fosse possível depreender o que era dito, sabíamos que algo estranho passava ali. Chegamos a interromper lances memoráveis só para tentar decifrar um pedaço daquele mistério. O velho era irremediavelmente rabugento aos olhares de todos os moradores da rua. Era possível sentir o seu desgosto pela humanidade toda a vez que punha os olhos azuis em cada um de nós. Fosse alguns anos mais tarde, quando aprendi do que se tratava o nazismo, eu certamente o apontaria como o diretor aposentado de um campo de extermínio na Polônia.

Nosso Hitler tinha um único amigo: Sr. Alfredo, marido da Dona Maria do cortiço, a avó dos meninos Bilé e Thiago da história da semana passada. Ambos trocavam cumprimentos muito respeitosos, visitavam-se sempre que possível. Nunca se soube exatamente o que faziam juntos, nem importa; a amizade era latente. Eram de outra época. Certamente trocavam, saudosos, impressões sobre a degeneração dos costumes daqueles anos 90, das bundas a chacoalhar com a lambada, os corações embalados pelo sertanejo romântico e, o principal, a falência do respeito pelos idosos.

Falassem mesmo sobre o último tema, e teriam razão. Pelo menos se nos tomassem como exemplos. Éramos crianças mal-educadíssimas, pelo menos com o próprio Pereira, o que se tornou evidente naquele sábado. A bola caiu mais uma vez na escadaria, depois de outras duas devoluções. Depois de muita insistência nossa, o velho irrompeu na porta da sala, do topo da escadaria, extremamente contrariado. Deitou sobre cada um de nós o olhar maligno de alguém sem coração. Alisou os ralos cabelos brancos, pigarreou, e disse: “Chega!”. “Como assim, chega?”, pensei. Afinal, esperávamos a semana toda tropeçando em teoremas de pitágoras e análises sintáticas para bater uma simples bolinha e o velho achava que tinha o direito de nos privar da diversão?

Minha petulância foi o combustível adequado para enfrentar Pereira. Apoiei-me no portão e vomitei toda a insatisfação com a má vontade do velho. Quando comecei a chacoalhar as barras de ferro, ele desceu as escadas com postura militar e ordenou que eu saísse dali naquele instante. Não desisti. Quando tornei a chacoalhar as barras, o portão se abriu. Mal deu tempo de alcançar a bola e o nazista golpeou a minha cabeça com a portinhola. Meio atordoado, mas com a bola recuperada, ainda pude ver seus olhos faiscando e o ódio que nutria por todos nós. Enquanto os amigos comemoravam, enxerguei nele outra coisa que me transformaria para sempre. Não era bem desprezo ou raiva; Sêo Pereira tinha medo de todos nós.

Naquele instante, percebi o quanto havia sido cruel. E como todos nós o fomos em algum momento com um idoso que apenas se encheu o saco de tanta criança chata ao mesmo tempo. Tive vergonha e sorri amarelo quando me tomavam por heroi, ao ter vencido a batalha pela restituição de nosso bem mais precioso.

Sêo Pereira não tinha netos, mas eu tinha avós.

Poucos anos mais tarde, soubemos da morte. Fumava muito e tinha sérios problemas respiratórios. Pode ter morrido deles, pode ter morrido por nós, pode ter morrido em uma discussão com a companheira louca ou só de velhice. Mas decerto morreu sem saber o quanto passei a respeitá-lo.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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