Romário Menezes de O. Jr. dificilmente atende o celular antes das 14h quando se trata de trabalho. Todos os dias acorda depois deste horário guiado por “aventuranças”. Há tempos, dorme com a consciência tranquila e pula da cama de peito aberto. A cara ainda é de moleque, nem parece que faz 15 anos, quando tinha apenas 21, que ele ajuda a Nação Zumbi a escrever o capítulo mais recente de algo realmente revolucionário na música brasileira.

Desde os 12 anos, Romário conserva o verdadeiro nome apenas na carteira de identidade e para seus familiares. Para todo o resto, atende por Pupillo, graças a um ex-cunhado que, apenas quatro anos mais velho, não era nenhum gênio da bateria, mas gabava-se de ter um discípulo, no fim dos anos 80, no Recife.

No meio desta semana, obviamente após as 14 horas, ele abriu a porta de sua casa como raramente faz a desconhecidos. Na camiseta verde, escrito Baixio das Bestas. Não é apenas sinal de que ele gosta do longa-metragem de Cláudio Assis, de 2006. O título revela uma seara pela qual Pupillo tem se aventurado faz um bom tempo: trilhas sonoras para cinema. Tocando, produzindo ou assinando composições com os companheiros de Nação ou outros amigos, como Otto e Fernando Catatau, ele já levou sua música para as telas com os estrangeiros Partes Usadas, Solo Diós Sabe e os nacionais Árido Movie, Amarelo Manga, Besouro, Linha de Passe e o próprio Baixio das Bestas.

O rosto ainda é amassado de sono, mas o pensamento é desperto e a fala articulada revelam o porquê de Pupillo, hoje com 36 anos, ter crescido ao lado de uma geração de músicos tão importante quanto as anteriores, e despertar hoje como um dos nomes mais requisitados do momento para encabeçar uma infinidade de projetos. No momento, ao lado de Rica Amabis (parceiro de 3NaMassa e com quem divide apartamento) e Tejo, ele trabalha na trilha do longa-metragem de animação Lutas, que conta a história dos momentos mais marcantes do Brasil em 510 anos, desde seu descobrimento pelos portugueses.

Entre um trabalho e outro, Pupillo leva a vida pessoal resguardada com os amigos. Avisa que a Nação Zumbi nunca deixou de ser a prioridade artística. Entre os integrantes impera uma permissividade benéfica de respirar o frescor de outros ares. O resultado desses “passeios” de Pupillo são uma turnê pelos EUA em julho e mais três discos com gente que assim como ele anda na contramao das mesmices do mercado.

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Pupillo guia-se pela intuição. Não lê partituras e justamente por isso, pelo fato de ser dotado de uma musicalidade saliente, recebeu um elogio de uma grande referência em sua carreira. “Em uma viagem para Londres, numa homenagem aos Mutantes, o seu Wilson das Neves (baterista) ficou impressionado por eu tocar daquele jeito sem ler nada. Vindo dele, é uma honra.”

Seu maior estudo é a cabeça aberta. Ele fala sem parar e ouve com respeito opiniões alheias. Nenhuma informação parece descartável. Em sua casa, quase 2 mil vinis, boa parte empilhada no chão, e o computador, constantemente ligado, são suas apostilas. Se interessa por gente que ainda engatinha na música, sem pré-julgamentos, garimpa raridades, como as composições do esquecido Noriel Vilela, e ignora fronteiras e gêneros. “Já ouviu isso aqui, monstro?”, pergunta ao percussionista Gustavo da Lua, botando pra tocar uma banda de rock da Nigéria.

Com ouvidos profundos como plataforma de petróleo, Pupillo sabe que ainda há muito a escutar, a aprender e a criar. “O computador é meu violão”, comenta revelando bases e temas já prontos de seus novos projetos. Seu apartamento virou multifuncional. Além de lar, é também uma espécie de QG informal de músicos em estado de ebulição. “Essa semana estavam aqui Seu Jorge, Lirinha… Direto a galera vem pra cá, (Jorge) Du Peixe, Céu…”.

Outro endereço certeiro para Pupillo é o estúdio do amigo Yuri Kalil. Lá, ele gravava a primeira faixa, “Distraída Solidão”, do novo disco de Junio Barreto, álbum no qual também atua como produtor. A função também já se tornou comum para o baterista. Com Otto, dividiu a produção de Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, um dos melhores álbuns de 2009. Da mesma maneira, trabalhou com o pessoal do Mombojó, cujo disco deve ser lançado em maio.

Cercado de amigos, Pupillo vai descamando suas peles. O projeto mais recente chama Almas, banda em que toca com o guitarrista Lúcio Maia (Nação Zumbi, Maquinado e Los Sebosos Postizos), o baixista Antônio Pinto e Seu Jorge. O disco do grupo, gravado em 2008 em duas semanas, estava na gaveta devido à falta de tempo dos integrantes para se dedicarem ao projeto. Será lançado em junho nos Estados Unidos, para onde, acompanhados de Gustavo da Lua, eles seguem, um mês depois, para uma turnê de um mês. Em agosto, o disco, composto apenas por covers, chega ao Brasil, com um repertório absurdamente variado e com interpretações autênticas.

Na lista, temas de Nelson Cavaquinho (Juízo Final, que havia entrado na trilha de Linha de Passe), Michael Jackson (Rock With You), Vinicius e Baden Powell (Tempo de Amor), Tim Maia (Cristina), João Donato (Cala Boca Menina) Noriel Vilela (Saudosa Bahia) e Kraftwerk. “Tenho o maior respeito, principalmente quando se trata de mexer na música dos outros. Você tem que fazer algo diferente da gravação original, mas sem abusar, se não vira um Frankstein”.

Outro disco que teve o toque de Pupillo, e deve ser lançado até junho, é o do Los Sebosos Postizos, banda formada com os comparsas da Nação Zumbi para tocar composições de Jorge Benjor. As músicas, que circulavam há tempos na internet em registros ao vivo, foram gravadas com qualidade e estão sendo mixadas por Mario Caldato. Entre os temas, Os Alquimistas Estão Chegando, Jovem Samba e O Nascimento de Um Príncipe.

Por fim, com o vento de seus moinhos criativos soprando pela liberdade, Pupillo começou a mandar para amigos letristas as bases do segundo CD do 3NaMassa, dividido com Rica Amabis (teclados) e Dengue (baixo). As composições ganharão as vozes de Céu, Nina Becker, Ana Cañas, Marina de la Riva, Pitty, entre outras, desta vez com letras de Du Peixe, Arnaldo Antunes, Otto, Junio Barreto e Fábio Trumer.

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses. Direto de Madri, pede desculpas pela falta de tempo e por reproduzir uma entrevista feita originalmente para o Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo

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