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“Onde está o homem?”, indagou um rapaz moreno, vestindo boné com a aba reta, corrente de prata, camiseta regata, cueca à mostra e chinelos de dedo. A secretária da Ed Dez Produções ouviria a mesma pergunta quase dez vezes no início daquela tarde. A recepção do prédio, localizado em um bairro nobre de Salvador, estava abarrotada de sambistas. Entre copos d’água e de café, muita música baiana ao fundo e um sorveteiro que andava de um lado para o outro com uma caixa de isopor, todos aguardavam o ex-jogador e agora empresário Edílson.

Quando o proprietário da Ed Dez fazia baliza para estacionar o seu carro diante da produtora, quem estava na sala vibrou. “Olhem o homem ali!”, a secretária apontou pela janela. Edílson foi recebido como ídolo. Distribuiu sorrisos e cumprimentou a todos. Resolveu o problema de um baterista que estava sem baquetas em um dos estúdios de sua empresa, assinou alguns papéis, abraçou o sorveteiro e reuniu-se com o seu irmão Aliomar a portas fechadas. Pouco depois, abriu o escritório para conversar conosco por mais de duas horas.

“Então você quer que eu conte todas as histórias da minha vida? Só tome cuidado porque aconteceu muita coisa impublicável, está bem?”, alertou Edílson, às gargalhadas. Nem por isso o ex-atleta se intimidou a narrar casos inéditos da sua trajetória no futebol. Justificou o apelido de “Capetinha” ao lembrar das brigas que teve com Edmundo e Marcelinho Carioca (leia em Love Story: do Kadet vinho a socos em Edmundo e em Embaixador da Fiel: da ameaça com faca a Marcelinho a campeão do mundo), das polêmicas vivenciadas ao lado do amigo Vampeta e dos bastidores de suas conquistas como jogador.

Na primeira das três partes desta entrevista exclusiva, Edílson conta como superou a infância pobre na Bahia para alcançar o estrelato definitivo com o título da Copa do Mundo de 2002. Hoje, homem de negócios com cabelos alisados e não muito mais gordo do que nos tempos de atacante, o Capetinha se emociona ao falar de suas origens e, principalmente, da morte do irmão Eliezer em um acidente automobilístico.

Sua empresa é bastante movimentada, hein?
Edílson Capetinha: Você viu só? Enquanto conversamos, podemos escutar as minhas bandas gravando nos estúdios. Além disso, o prédio também abriga uma editora, uma agência de viagens, os setores de vendas… Isso sem falar da minha casa de shows. Montei quase toda essa estrutura há uns dez anos. Foi tudo planejado por mim.

Até aqueles quadros com a sua imagem e a do Vampeta na parede?
Também sou o responsável pela decoração, claro. Ganhei os quadros de um artista, que fez os desenhos com base em fotografias nossas. Ficou muito legal, não é? O Vampeta queria levar o dele para pendurar em casa, mas eu não deixei. É uma recordação bonita da nossa amizade. Nós estivemos juntos, inclusive, durante essa semana.

Ele te contou que irá participar do reality show “A Fazenda”, da TV Record?
Ele me disse que não vai mais participar. O melhor para o Vampeta, agora que está aposentado, é se tornar dirigente do Corinthians. Pô, a ligação dele com o clube é enorme. Lembra da passeata de comemoração pelo título da Copa do Mundo, em Brasília? Ele não estava usando a camisa da seleção brasileira lá. Preferiu vestir a do Corinthians. Depois que o pessoal bebeu todas pelo caminho e ganhou as medalhinhas do presidente, ele fez até aquela graça de dar cambalhota na rampa do Palácio do Planalto. Se eu fosse um diretor de clube, contrataria logo o Vampeta. É um cara carismático, inteligente e que viveu muitos anos no futebol. Ele sabe como lidar nesse meio.

Você aceitaria algum trabalho nessas áreas? Participaria de um reality show ou se tornaria dirigente?
Isso não é para mim. Já toco a minha produtora faz tempo. Dá mais trabalho do que ser dirigente de futebol. E também possuo agora uma empresa chamada Gold Soccer, para agenciar carreiras de jogadores. O Artur, ótimo zagueiro do São Caetano, é um dos nossos clientes. Outro deles é o lateral Dieguinho, de quem eu renovei contrato com o Fluminense recentemente. Em seis meses de vida, a Gold Soccer está indo de vento em popa. Pretendo até assumir um clube da primeira divisão do futebol baiano, o Madre de Deus, para gerir durante 20 anos. Serei o presidente.

Esse contato intenso com o futebol não te deixa com saudades de jogar?
Não. Até recebi uma proposta há pouco tempo, para defender o Ceará. Mas eu não me preparei para jogar em time de menor porte. Sentiria muita falta da torcida, da motivação, das cobranças… Não consigo fazer o que o Túlio Maravilha faz, por exemplo, e pular de clube pequeno para clube pequeno.

Como começou essa sua preparação para jogar em grandes clubes?
Nasci no bairro da Federação, que é um lugar muito pobre de Salvador, humildezinho. Tive uma vida de menino de periferia, que empina arraia, joga bolinha de gude e anda de patinete. Você não deve entender muito disso, pois em São Paulo é diferente. Aqui, nós baianos sempre inventávamos alguma distração que não tivesse custo. A maior delas, obviamente, é o futebol. É um esporte gratuito. Você pode jogar bola em qualquer lugar, com uma meia ou com uma latinha. Foi assim que comecei.

Você passou dificuldades na infância?
Vivi na Federação até os meus 18 anos. Como em qualquer periferia, acontecia tudo lá. Mas, ainda assim, a minha infância foi bastante tranquila. Não fazíamos nada errado porque respeitávamos o estatuto da família: não podia beber, não podia fumar, não podia ficar bagunçando na casa do vizinho, não podia passar as madrugadas nas ruas… E muitos parentes moravam conosco. Por isso, cresci em um ambiente familiar, com união entre tios, tias, primos, primas, irmãos e conhecidos. Se faltasse alguma coisa para alguém, a gente pegava na casa do amigo. Meus pais trabalhavam muito para garantir o nosso sustento. Ela [Maria de Lurdes] era empregada de uma escola, e ele [Carlos Ferreira, conhecido como Carlito Cafroxo] sempre foi músico.

Sua paixão pela música surgiu através do seu pai?
Tive um pouco de dificuldades nesse ponto, pois ele se separou da minha mãe assim que eu nasci. Só voltou para casa depois de oito anos. Mas sou afilhado de Nelson Rufino, um dos grandes compositores do samba, e sempre vi o meu pai comandando os blocos carnavalescos. A minha relação com a música é muito forte. Meu pai não teve a oportunidade de me ensinar a tocar nenhum instrumento, mas levo isso no sangue. Foi fácil aprender. Até hoje eu faço aulas de bateria e cavaquinho, além de ajudar as minhas bandas a gravarem. Cresci nesse ritmo. Sempre estudando, porque a minha mãe dá bastante valor à educação, e jogando futebol.

Já era meia ou atacante naquela época?
Eu costumava jogar no meio-campo, como no início de carreira. Mas, na pelada, queria porque queria ser zagueiro.

Com esse tamanho todo? [Edílson mede 1,68 m.]
[Risos.] Eu tinha medo de ficar tomando porrada no ataque. No futebol amador, é complicado. O meu irmão Eliezer era o melhor jogador da família. Jogava muito, muito, mesmo. Se tivesse 60 jogadores na pelada, quem ganhasse no par ou ímpar escolhia o Eliezer logo de cara. Um dia, convidaram a gente para bater uma bola e ele sofreu uma fratura exposta. E você sabe que uma família humilde não tem condições de operar, de fazer fisioterapia, de pagar um médico… Não houve recuperação. Depois disso, peguei um receio danado de jogar como atacante. Não queria seguir o mesmo caminho do meu irmão. Sempre pretendi ser zagueiro por isso.

O Eliezer é o seu irmão mais velho?
Não, ele era o irmão do meio. Sou o caçula. O mais velho é o Aliomar Ferreira, seguido da minha irmã Sueli Ferreira. Só depois vem o Eliezer, que não se chamava Eliezer na verdade. Minha mãe mandou registrá-lo com esse nome, mas o meu pai não concordou e aprontou uma surpresa quando foi ao cartório. Deu o nome dele, Carlos Ferreira, para o filho. Não pegou. As pessoas só conheciam o meu irmão como Eliezer.

Ele já faleceu?
O Eliezer morreu em um acidente com uma das nossas bandas [Pagodart], em 2004, quando o ônibus capotou perto de Itaberaba, aqui na Bahia. [Outras vítimas fatais foram o saxofonista Edvaldo Carvalho e o montador de instrumentos Denis Santos. Aliomar, irmão mais velho de Edílson, foi assaltado quando se dirigiu para prestar socorro.] Isso aconteceu em 2004, na mesma época em que enfrentei o Corinthians em uma quartas de final de Copa do Brasil. Ganhamos por 2 a 0 no Barradão.

Você teve cabeça para jogar aquela partida?
Ninguém pensou que eu jogaria. O meu irmão faleceu em um lugar muito distante de Salvador. Fui para lá e passei a noite inteira sem poder fazer nada. Demorou uns três dias para liberarem o corpo e para o sepultamento ser marcado. O enterro foi no dia do jogo. Presidente, dirigentes e médicos do Vitória compareceram para me dar uma força. Na hora em que o sepultamento acabou, pensei comigo: “Será uma grande homenagem para o meu irmão, que era Vitória doente, ir para o estádio e torcer muito”. Quando a equipe já estava no vestiário do Barradão, desci com o meu carro, entrei e falei para todo mundo: “Mermão, eu vim para jogar”. Ninguém acreditou. O time já havia sido escalado sem a minha presença. Só que eu era o grande ídolo da torcida e o artilheiro do time na temporada. Não era justo abandonar meus companheiros naquele momento. E o que o meu irmão mais queria era me ver em campo.

Como foi o jogo?
Joguei até os 40 minutos do segundo tempo e fui ovacionado quando saí. Foi a partida mais marcante da minha carreira. Nego se lembra mais daquela que deu polêmica [refere-se à final do Campeonato Paulista de 1999, quando fez embaixadinhas contra o Palmeiras] ou dos meus títulos, mas estas são recordações diferentes para mim. Quando acabou o jogo entre Vitória e Corinthians, desmaiei no vestiário. Caí e só acordei no hospital. Foi um desgaste emocional muito grande. Tudo isso que aconteceu me fez fortalecer ainda mais os laços com os meus familiares. Vivo para a minha mãe hoje em dia. Nos domingos, não me preocupo em pegar meus carros e sair para passear. Prefiro ir para a casa da minha mãe, almoçar com ela e me sentar no sofá para assistir à televisão. Meus irmãos também tiveram muita influência na minha carreira.

Qual foi a contribuição do Aliomar?
Nós jogávamos juntos um campeonato amador muito forte na Bahia, por uma empresa de nome Aconfip, e começamos a nos destacar. O dono dessa empresa até me ajudava com R$ 50, R$ 100, convertendo o dinheiro para a moeda de hoje. Nessa competição, sempre enfrentávamos um time chamado Guarani, que na verdade era defendido pela equipe de juniores do Bahia. Eles tinham o Uéslei, o Marcelo Ramos, o Paulo Emílio, o goleiro Jean… Treinavam no Bahia de segunda a sexta e nos desafiavam no torneio amador nos finais de semana. Conquistamos o bicampeonato em cima deles. Fui artilheiro em um ano e, no seguinte, o goleador foi o meu companheiro de ataque. Esse cara foi o melhor atacante com quem já joguei. Chama-se Lorival, mas na Bahia é conhecido como Blábláblá. Com ele, não tinha para ninguém. Ainda batemos uma pelada de vez em quando atualmente. Bahia e Vitória fizeram o possível para profissionalizá-lo, mas ele não quis. Naquele tempo, o Lorival tinha um cargo bom no Pólo Petroquímico e não quis trocar o certo pelo duvidoso. Futebol não dava tanto dinheiro assim.

Você também trabalhava?
Eu tinha um tio que era marceneiro. Comecei a ajudá-lo a fazer portas, armários, um monte de coisas. Fiquei uns dois anos na oficina dele. Quando completei 16 anos, fui para a escolinha de futebol de salão da Brahma. Até cogitaram me levar para o Votorantim e para a seleção brasileira, na época em que o Manoel Tobias e outros craques estavam começando no esporte. Não deu certo. Mas o treinador do time adulto da Brahma era dono de uma clínica. Ele sabia das minhas dificuldades financeiras e me arrumou um emprego como auxiliar de almoxarifado nesse negócio dele. Era eu quem cuidava dos remédios, entrava em contato com ambulatórios, fazia requisições… Tinha um departamento só para mim.

Quando decidiu trocar o certo pelo duvidoso?
As coisas melhoraram quando um amigo, proprietário de uma auto-escola, e o dono da Aconfip me levaram para fazer testes no Vitória e passaram a pedir para todo mundo me dar uma chance. Até pintar um convite para jogar no Espírito Santo. Foi então que avisei na clínica onde eu trabalhava: “Vou arriscar essa viagem, treinador. Preciso dar uma vida melhor para a minha mãe, e acho que esse é o caminho. Agradeço por tudo o que o senhor fez por mim. Mas, se não der certo lá, pode me dar o meu emprego de volta, por favor?”. [Risos.] Ele respondeu: “Rapaz, vá com Deus. Acontecendo algo errado, você volta e está empregado”.

Como foi a viagem?
O dono da Aconfip comprou passagens de avião para nós. Botou o agasalho do time na gente e tudo, para chegarmos uniformizados. Fomos antes para Vitória, capital do Espírito Santo. De lá, pegamos 1.200 km de estrada até Santa Maria de Jetibá. Só tinha alemão nessa cidade, e era o primeiro ano do time que eles criaram, o Industrial. A equipe durou uma temporada e acabou. Parece coisa de Deus. Esse time só existiu para eu poder me tornar alguém na vida.

Mas depois você já foi para São Paulo?
Que nada. Peguei o meu passe e voltei para Salvador. Estava profissionalizado, com passe nas mãos e sem clube. A sorte voltou quando um treinador chamado Jaime Braga foi ver um dos meus jogos no futebol amador. Ele convidou o meu irmão e um zagueiro, o Roberto [ex-Santa Cruz], para jogar em Tanabi, interior de São Paulo. Meu irmão só aceitou ir se o cara me levasse junto.

E lá foi você outra vez…
Mas essa viagem foi de ônibus, bem mais desgastante. Nem dinheiro para ir a gente tinha. Um vizinho fez um bolo, outro deu refrigerantes, juntamos tudo com as poucas roupas que tínhamos e jogamos nas bolsas. Fomos em oito pessoas para São José do Rio Preto. De lá, pegamos uma Kombi até Tanabi. Disputamos a Série Intermediária do Campeonato Paulista, como diziam na época. Muita coisa engraçada aconteceu naquele tempo.

Por exemplo?
São tantas histórias… O nosso alojamento era embaixo do estádio do Tanabi, onde também ficava a cozinha. O mais esfomeado do time era um cara chamado Senegal, um negão de quase 2 metros, zagueirão, que viajou comigo. O cara alto, grande e forte quer comer muito sempre. Mas o Pelé, que era o cozinheiro, pegou uma bronca tremenda do sujeito. O meu prato e o dos outros até eram caprichados. Ou melhor, tinha arroz pra caramba e um pedacinho legal de bife, mas pequeno. Quando chegava a vez do Senegal pegar comida, o Pelé só servia um pouquinho de arroz e um pedacinho mínimo de carne. O negão ficava louco de raiva depois de esperar na fila e ver todo mundo receber outro tratamento.

Essa revolta terminou em briga?
O Senegal sempre protestava: “O que você tem contra mim, Pelé? Estou com fome! Vou te pegar de porrada!”. Um dia, quando estávamos dormindo pela manhã, ouvimos um estouro assustador vindo da cozinha. Todo mundo acordou. A panela de pressão havia explodido, talvez porque o Pelé tivesse a mania de fumar à beira do fogão enquanto cozinhava. O Senegal foi o primeiro a chegar ao local e viu o Pelé cheio de feijão na cara e no corpo. Em vez de socorrer, ele começou a provocar: “Viu, desgramado? Bem feito! Você vai morrer com os seus feijões! Não queria o feijão? Então toma!”. O resto do time ajudou a levar o Pelé para o hospital, mas o negão ficou só dando risada. Depois do episódio, a gente brincava com o Pelé: “Pô, que trairagem, hein? Senegal te viu morrendo e não fez nada! Foi praga dele! É melhor tratar bem o negão!”. Mas o tratamento só piorou!

O Tanabi deu certo dentro de campo?
Tanto deu que o seu Beto Zini, presidente do Guarani, mandou observarem um jogo nosso contra o Barretos, em Barretos. Na verdade, queriam ver o tal de Rick, o meu companheiro de ataque, que era o grande nome da Série Intermediária por fazer muitos gols. Mas eu arrebentei naquela partida. Marquei quatro gols. Seu Beto Zini já foi falando: “Não quero esse Rick, não. Vou levar o outro moleque”. Pagaram o equivalente a R$ 150 mil para me levar ao Guarani. Era muita grana para a época. O que aconteceu comigo não acontece com mais ninguém. Juntei todas as minhas coisas depois do jogo do fim de semana seguinte, entrei em um carro e fui direto para o Guarani para disputar o Campeonato Paulista. Assim começou a minha trajetória pelos grandes clubes do país.


*Primeira das três partes de entrevista originalmente publicada na Gazeta Esportiva, em 2009. Meses depois, Edílson abriu mão da aposentadoria para jogar pelo Bahia.
**O autor enfrenta problemas técnicos.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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