Trabalhei na Vila Olimpia por quase dois anos. Foi tempo suficiente para nutrir um ódio enorme pelo bairro.  Baseado no conto “Ai de ti, Copacabana”, de Rubem Braga, escrevi na época alguns dos motivos do meu ódio pelo bairro paulistano. O conto de Rubem Braga lista uma série de alertas sobre a decadência de Copacabana, com a construção de altos prédios e a concentração cada vez maior de pessoas. Segui o modelo e só adaptei para a horrorosa Vila Olimpia:

1) Ai de ti, Vila Olimpia, já nasceste condenada pelos homens ao destino da eficiência e aos padrões burocráticos do corporativismo

2) Ai de ti, Vila Olimpia, maculada por prédios envidraçados e zumbis engravatados que caminham indiferentes rumo aos seus ofícios

3) Ai de ti, Vila Olimpia, homens sérios, homens de poder, que fecham contratos, calculam budgets e fingem não perceber o odor impregnado de seus rios e a fumaça inveterada advindas de suas marginais

4) Ai de ti, Vila Olimpia, invadida às seis da tarde por milhões de carros que trafegam lentamente, envenenando-a sem piedade, como um castigo justo que a derrotará

5) Ai de ti, Vila Olimpia, suas calçadas estreitas e mal projetadas, seus restaurantes caros e vagabundos, suas mulheres gostosas e retardadas

6) Ai de ti, Vila Olimpia, ao cair da noite é invadida por músculos e chapinhas, caras e bocas mascaradas, danças encenadas e farsas descaradas

7) Ai de ti, Vila Olimpia, ao amanhecer estas sozinha novamente, aguardando os parasitas que lhe arrancam o sangue, pronta novamente para ser enganada por cidadãos que só respiram e nunca vivem

André Toso improvisa aos domingos para o Sete Doses

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