Biro, ouvindo o som de mais um ônibus chegando ao ponto, cutucou, pela terceira vez, a garota ao seu lado.

– Moça, e esse? É o 875-C?

– Agora sim, é ele.

– Bora Jô! Finalmente chegou esse trem!

Os dois subiram e sentaram em um par de cadeiras localizadas na metade da frente do coletivo, antes da catraca.

– Motorista, avisa a gente quando chegar no metrô Ana Rosa?

– Não Jô! O caminho dentro desse metrô você sabe que não decorou direito ainda!

– Ah, é! É verdade! Mas eu to quase bom nele já!

– Vamos parar no Paraíso, por favor! – pediu Biro ao cobrador.

– O Paraíso é complicado, né? É enorme aquele lugar! Tem mais saída que a puta que pariu! Mas ele eu tenho decorado inteirinho, que nem um mapa na cabeça. Igual a Vila Mariana e a Consolação. De tanto ficar andando… Sabe que eu acho que aquela moça do ponto de hoje deve ser muito bonita?

– Ora! E ceguinho lá sabe de achar mulher bonita e mulher feia? Dá pra descobrir se a mulher é gostosa. Isso dá! Melhor do que quem enxerga. A gente descobre corpo gostoso e corpo derrubado na lata! Os dez dedos bem usados, pra quem tem treino, é melhor que qualquer dois olhos!

A velhinha que sentava no banco ao lado dos dois fuzilou-os com uma cara zangada. O que, obviamente, em nada afetou a animação da dupla. Também soltou um grunhido de repreensão.

– Eita, que tem um bicho bufando no nosso cangote!

– Como tem gente mal educada na rua!

– Ah, mas é como eu tava te falando. Pra algumas coisas de beleza dá pra descobrir sim. Dá pra apalpar se a mulher é nariguda, se é orelhuda, se é queixuda. E também dá pra saber se é bonita ou não pelo cabelo. Ah, mulher com cabelo fedido, grudento, é desarranjada! Até ceguinho sabe!

– Ceguinho pode fazer quase de tudo na vida!

– É! Só não pode ter filho! Pelo menos não dois ceguinhos juntos! É trabalho demais!

– Ah, isso é!

– Já imaginou que confusão? Aquele monte de criança ocorrendo, pulando, se escondendo. Na bagunça, não dá nem pra saber se é o filho próprio ou o filho do vizinho que os ceguinhos tão pegando pelos cabelos.

– É! Isso pode dar em briga. É uma confusão dos diabos!

– Não dá pra ter autoridade. A molecada monta em cima!

– Imagina ceguinho dando bronca, e as crianças plantando bananeira, virando de costas, mostrando a bunda. Ah, não dá! A gente percebe até um monte de coisa, mas criança é o capeta pra inventar jeito de desobedecer!

– É! Não dá pra engravidar qualquer uma por aí! Sem ninguém pra enxergar complica tudo!

A senhora fez nova cara de reprovação, desta vez junto com o cobrador, que ficou visivelmente ruborizado. Os demais passageiros estavam simplesmente atentos, entretidos com ruidosa e animada conversa da dupla.

– Paraíso! – alertou o motorista.

– Dá é pra gente pular fora! – e desceram os dois.

– Sabe que a mulher que bufou na gente é mal educada, mas pela voz acho até que devia ser bem bonita?

– Ora! E eu já não te disse? O que é que ceguinho lá sabe de achar mulher bonita e mulher feia?

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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