Quando Os Trapalhões decolaram definitivamente na TV Globo, Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, teve, naturalmente, de abandonar Os Originais do Samba, grupo que ajudou a fundar na década de 1960.  O que pouco se sabe é que paralelamente a tudo isso o comediante e sambista gravou três discos-solo.  O primeiro, de nome Mussum,  foi registrado em 1980 pela antiga RCA Victor e foi relançado recentemente pela Sony Music.

O álbum não deve nada aos outros dois, Água Benta (1978) e Because Forever (1986). Mussum era do métier, frequentando as rodas do Cacique de Ramos e convivendo com os bambas da época.  Como se não bastasse o fato de passear com naturalidade pelo universo dos sambistas, Mussum também emprestava seu carisma conhecido nas telas aos microfones dos estúdios, com afinação e divisão rítmica destacadas.  

Além disso, em Descobrimento do Brasil, ele teve o privilégio de contar com um instrumental luxuoso, sendo amparado por feras como Dino Sete Cordas (violão 7 cordas), Luizão Maia (baixo), Wilson das Neves (bateria), Almir Guineto (banjo), Bira Presidente (pandeiro), Ubirani (repique), Sereno (tantã), Chiquinho (acordeon) e Zé Bodega, da lendária Orquestra Tabajara (sax tenor), entre outros.

Nas 11 faixas, Mussum mostra-se versátil ao interpretar versos de amor escritos por grandes compositores, como em Um Amor Em Cada Coração, de Vinicius de Moraes e Baden Powell – com bela participação da cantora Márcia –, e em Criança Louca, de Jorge Aragão e do saudoso Neoci Dias, também integrante da primeira formação do Fundo de Quintal.  

Mas é nos sambas jocosos que ele deita e rola, com letras que parecem ter sido escritas para sua voz.  Exemplos maiores são A Vizinha (Paulinho Durena e Alfredo Melodia) e o destaque, Nega Besta.  Na música, derivada de The Old Fashioned Way, Mussum desfila seu vasto vocabulário de palavras terminadas com “is”, como “casis” (casa) e “housis” (house), com versos hilários do genial Arnaud Rodrigues, que morreu neste ano.  A letra é representante da linha seguida ainda hoje por Nei Lopes, Germano Mathias e Trio Calafrio, com Marcos Diniz, Luiz Grande e Barbeirinho do Jacarezinho.

O álbum tem ainda bons momentos, com Martinho da Vila cantando Teatro Brasileiro, samba que impressiona pelo jeito semelhante de interpretação entre ele e Mussum, além da discreta participação dos Trapalhões em Descobrimento do Brasil, no qual o cantor é acompanhado por um coro infantil.  Por fim, com Eu Sou Assim, o disco deixa a certeza de que o dia 29 de julho de 1994 não nos levou apenas um gênio do humor, mas também um grande sambista. 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses

Anúncios