O soldado Dunga, que faz do campo de futebol um front de batalha

Sempre simpatizei mais com drogados do que com guerreiros. Sei lá o motivo, mas prefiro o que é torto e fora do lugar. Nada que é comum me agrada. Prefiro me ligar a pessoas e causas que saem do politicamente correto. Se os guerreiros são celebrados como heróis, prefiro ficar ao lado dos drogados decadentes. É da minha natureza. Por isso, esse ano estou com a Argentina de Maradona e torço contra o Brasil de Dunga.

Escrevo isso antes da estreia do Brasil e essa opinião não mudará de forma alguma. Se o time de Dunga golear todos os adversários e conquistar o hexa, continuarei achando a postura do time e do treinador uma merda. Os discursos e o isolamento da torcida e da imprensa mostram que temos um treinador de ego inacreditável, beirando o patológico. Maradona tapou seus vazios existenciais com cocaína, Dunga tapa os dele querendo ser o líder de um Exército. Enquanto Maradona fuma charutos, brinca com os jogadores, libera o sexo e a cachaça, Dunga fica de cara amarrada repetindo a palavra comprometimento como um papagaio mecânico programado para falar bosta. Prefiro a subversão, prefiro o não levar a sério, a anarquia, o caos. É disso que somos feitos.

Comprometimento é o caralho. Futebol é uma brincadeira. A bola é um brinquedo. Os jogadores precisam brincar em campo para dar alegria para quem assiste e quer se divertir. Diabos, futebol é diversão! Quando um babaca como Dunga fica repetindo as merdas que fala, o esporte vira a mesma coisa que a política ou o mundo corporativo. A visão de nosso técnico do que é uma partida de futebol beira o fascismo. É assim que as ideias conservadoras e babacas que regem nossa política nascem. Se o Brasil ganhar a Copa com esse modelo belicoso será tido como modelo de sucesso. Assim como uma empresa que fode com seus funcionários para obter lucro. A seriedade em excesso, na maior parte das vezes, é terrível. Assim como a anarquia excessiva faz mal, como ficou claro na Copa passada. O meio termo, sempre o melhor caminho, nunca é lembrado.

Dunga, quando faz seu discurso, pensa que está defendendo uma pátria. O caralho! Ele quer, com sua filosofia barata, rígida e cega, formar uma seleção dele e de mais ninguém. Ele quer ganhar a Copa não para dar um presente para os brasileiros. Ele quer ganhar para calar a boca de todo mundo e provar que ele estava certo e que ele é o fodão. Dunga é o típico homem dos nossos tempos. Acha que o sucesso eficaz é o que importa. Esquece-se a paixão, esquece-se a arte, a subjetividade, esquece-se o sentido do futebol. A eficiência acima de qualquer coisa. A mecânica em detrimento da imperfeição humana. Dunga forma um Exército que vai para uma batalha cujo objetivo é vencer e não entreter ou encantar. A vitória pela vitória, danem-se as consequências. Tem coisa mais sem sentido que isso? Tem coisa mais insossa que essa seleção brasileira?

Do outro lado, vejo o imperfeito Maradona falando o que pensa nas coletivas, levando a Copa do jeito que tem que ser levada, como um grande evento, uma grande festa. Trabalha-se sério, sim, mas na medida certa, com piada, com alegria, com verdade. Ele pode não entender nada de tática, mas sabe dar uma boa festa. Dizem que Maradona é louco, um cara que só arranja confusão e tal. Ele é imperfeito e não tem vergonha de mostrar. Dunga, com seu discurso falso e indigesto, não consegue enxergar suas próprias imperfeições, de tão focado em sue próprio umbigo, em sua vitória pessoal, em seu cala boca para os que o cornetam.  Maradona é arte, Dunga é brutalidade. Maradona cheira cocaína, Dunga come merda. Qual você prefere? Seja lá quem ganhe, eu fico com uma bela carreira de cocaína no lugar de um punhado fedido de merda.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e torcerá contra o Brasil se a seleção jogar contra a Argentina

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