Edílson foi nomeado ‘embaixador’ do Corinthians no dia 20 de junho de 1999, data da decisão do Campeonato Paulista contra o Palmeiras. Ao causar uma batalha campal no Morumbi, no entanto, o ex-jogador provou já naquela ocasião que não tinha muito talento para a diplomacia.

As relações de Edílson com o Palmeiras não eram cordiais desde que ele havia se transferido para o maior rival, no ano anterior. De personalidade forte, não aceitou as provocações que sofreu dos campeões da Copa Libertadores da América durante a decisão estadual do final da década passada. Começou a fazer embaixadinhas em campo para revidar. Foi o estopim para uma briga generalizada entre corintianos e palmeirenses, com curiosa participação do goleiro reserva (e lutador de boxe, de acordo com o relato de Edílson) Renato.

Não foi apenas com adversários que o Capetinha se envolveu em confusões quando estava no Corinthians. Na última das três partes desta entrevista, ele conta que já correu atrás do amigo Marcelinho Carioca até com uma faca em punho depois de uma troca de acusações. O temperamento explosivo havia levado o baiano à prisão no dia em que se aproximou de Vampeta.

Mas as atitudes intempestivas eram raras na carreira de Edílson. A maioria das polêmicas criadas por ele foi premeditada. Como as ‘canetas’ que aplicou no argentino Javier Mascherano e no francês Christian Karembeu, na época no Real Madrid, para então se consagrar com a conquista do primeiro Mundial de Clubes organizado pela Fifa – com direito a “humilhar” o lateral esquerdo Roberto Carlos. O Embaixador da Fiel confessou que planejou até mesmo a sua saída do Corinthians, em 2000, após um desentendimento com torcedores.

O que passou na sua cabeça na hora de fazer aquelas embaixadinhas?
Edílson Embaixador da Fiel: Não passou nada. Quem me conhece sabe que treino esse tipo de coisa pra caramba. Disputo com os meus companheiros para ver quem faz mais malabarismo com a bola, se eles sabem levantar de um jeito ou de outro. Foi mais uma brincadeira de treinamento. Não fiz pensando que teria toda aquela repercussão. Tanto que nem consegui executar direito na hora.

Mas, se ainda não era, você se tornou ídolo dos corintianos depois daquele episódio.
Realmente. Virei muito ídolo por causa daquilo. Até me chamam de Embaixador da Fiel. Mas não foi algo que programei. Aconteceu naturalmente.

Lembra como foi a confusão dentro do campo?
O primeiro que tentou me dar um empurrão e uma bolada foi o Júnior. Depois, o Paulo Nunes quis me acertar uma pezada. Eu revidei a agressão do Paulo Nunes, para não ficar feio para mim, e corri para o vestiário. Deixei os caras se pegarem lá, né [risos]? Sabe o que foi mais engraçado? Quando desci para o túnel do Morumbi, com um monte de gente atrás de mim falando “pega”, o portão estava fechado. Fiquei encurralado ali, esperando alguém descer para me pegar.

O Renato, goleiro reserva do Corinthians, até caiu no túnel quando foi perseguido pelos jogadores do Palmeiras.
O Renato lutava boxe. Treinava com a gente durante o dia e fazia boxe à noite. Era impressionante a força que o garoto tinha. Ele mandava a gente chutar a bola com força, a 10 metros de distância, e tirava de peito. Não metia a mão para defender nesses treinos, não. O cara era muito forte. Você sabe por que os jogadores do Palmeiras correram atrás dele? Naquela confusão toda, o Renato deu um soco e quebrou o nariz do Oséas. Ninguém assistiu a esse lance. Televisão nenhuma mostrou. Quando os palmeirenses viram o Oséas todo ensanguentado, quiseram pegar o Renato. Ele saiu correndo e pulou naquele buraco.

A rivalidade entre Corinthians e Palmeiras estava muito exacerbada, não é?
O Palmeiras tinha duas finais para disputar em 1999. A decisão do Campeonato Paulista foi intercalada com a final da Libertadores. Eles perderam o primeiro jogo na Libertadores [1 a 0 para o Deportivo Cáli] e tomaram três gols da gente no Paulista. Na quarta-feira seguinte, o Palmeiras ganhou a Libertadores nos pênaltis. Como já tinham tomado 3 a 0 de nós na partida de ida, eles achavam que não conseguiriam reverter e começaram a dizer que o título paulista não valia nada. Fomos menosprezados. O Corinthians estava concentrado, secando o Palmeiras na Libertadores e ouvindo todas essas provocações. Ficamos putos. Na grande final de domingo, os caras entraram todos com os cabelos verdes. Alguns deles colocaram as faixas de campeão da Libertadores dentro dos shorts. Em campo, eles ficavam nos diminuindo. Estávamos cada vez mais putos com toda essa história.

Isso não é tão antiprofissionalismo quanto o que você fez?
É muito mais! Mas ninguém sabe disso! Só ficou marcada a minha resposta para eles, as embaixadinhas. Aconteceram muitas coisas erradas em campo naquela decisão. Os caras entrarem com cabelos verdes foi uma tremenda falta de respeito. O pior é que eles fizeram dois gols, precisando ganhar por quatro. Começamos a falar entre nós: “O que é isso? Meu Deus do céu! Só falta a gente perder! Vai cair o mundo!”. Mas o Marcelinho descontou e, no segundo tempo, eu fiz 2 a 2. Aí, acabou. A torcida começou a comemorar. Em meio a isso, eu estava perguntando para quem ficou no banco de reservas quanto tempo faltava para terminar o jogo. Quando olho para o lado, a bola veio para mim. Era a hora de valorizar, né [risos]?

Esse time do Corinthians também tinha briga de egos, como o Palmeiras de 1993/1994?
Era melhor do que o do Palmeiras nesse sentido. Claro que tinha as suas vaidades: Marcelinho, Rincón, Ricardinho, eu… Mas era melhor.

Você e o Vampeta eram o ponto de equilíbrio dessas vaidades?
Com certeza. Se não tivesse o Vampeta e eu, muita confusão estouraria. Éramos dois líderes, com uma união enorme, e pensávamos do mesmo jeito. Qualquer problema que acontecesse, não era só o Edílson que iria reclamar. Eram Edílson e Vampeta.

A amizade entre vocês começou no Corinthians?
Foi na delegacia. Quando o Vampeta chegou ao Corinthians, na primeira semana dele em São Paulo, saímos para lanchar perto do Cemitério do Araçá e aconteceu aquela história da minha prisão.

Como foi a história da sua prisão, mesmo?
Era de madrugada, em dia de jogo do Brasil. Parei em fila dupla na Avenida Doutor Arnaldo para ir à lanchonete. O policial mandou tirar o carro do local, mas eu não tirei. Ele chamou uma viatura, disse que eu tinha feito xingamentos e me levou preso. O Vampeta não saiu do meu lado em momento nenhum, de 1 hora até 7 horas na delegacia. Foi aí que eu percebi que o cara era ponta firme.

Vocês se apresentaram para treinar no dia seguinte?
Só fui liberado pelo delegado às 7 horas. O Corinthians treinava às 9 horas e viajava em seguida. Quando chegamos ao treino, o Wanderley Luxemburgo disse: “Vocês dois podem ir para casa! Estão suspensos!”. Pegamos as malas e fomos embora. Depois de uma semana, com o time indo mal e precisando da gente, o Wanderley falou que seríamos reintegrados se pedíssemos desculpas. Convocou uma entrevista coletiva apenas para isso. Sentamos na mesa o presidente do Corinthians, o supervisor Luiz Henrique de Menezes, o Wanderley Luxemburgo, o Vampeta e eu. O Vampeta já foi soltando: “Quero pedir desculpas, principalmente ao Wanderley, pois falei para ele que não havia motivos para nos suspender. Não tive nada a ver com o episódio, mas o Edílson é meu parceiro e precisei acompanhá-lo”. O Vampeta foi reintegrado.

E o Edílson?
Eu me impus: “Mermão, não vou pedir desculpas coisa nenhuma. Não fiz nada errado. Entre ficar suspenso e pedir desculpas, prefiro continuar suspenso”. Agi dessa forma até porque o policial me processou. Se eu afirmasse que estava errado, teria que responder à Justiça lá na frente. Fiquei mais um mês treinando sozinho em Itaquera. O time seguiu mal, perdendo as finais do Paulista com Didi e Mirandinha no ataque contra o São Paulo do Raí, e os colegas pediram o meu retorno ao Wanderley.

Como era trabalhar com o Wanderley Luxemburgo?
Foi o melhor treinador que já tive. Ele mudou a minha posição para atacante. Brigamos por isso, fiquei de cara feia, mas todo o meu sucesso aconteceu por causa da alteração. Brilhei muito mais como atacante. Ninguém se lembra de mim como meia. Mesmo assim, tive vários problemas com o Wanderley. Isso porque eu era muito menino, de personalidade forte, e não aceitava que nego reclamasse comigo na frente de todo mundo. Ainda mais se fosse abrindo os braços, com falta de educação. E o Wanderley, de vez em quando, é muito mal-educado para essas coisas. Ele se exalta e dá esporro. É o jeito dele. Chegava ao ponto de eu marcar dois gols em um jogo e ele virar para mim e dizer: “Hoje você foi mal, hein?”. Pô, como é possível agradar a esse cara? Ele não fica satisfeito nunca! Mas é uma maneira de sempre motivar o grupo.

É mais difícil ser companheiro do Marcelinho Carioca ou do Edmundo?
Até que não tive tantas dificuldades assim com o Edmundo. Depois daquela briga no vestiário, a gente criou uma ligação muito forte. Hoje, ele é meu compadre, padrinho de casamento. As pessoas próximas a nós costumam dizer que o Edmundo é o melhor amigo distante. Ele se preocupa, liga para saber como você está e acompanha a vida do amigo. Agora, se ele está perto, não tem jeito que vai acontecer uma briga. O Marcelinho é diferente. É um cara mais calado, mas também tivemos confusões.

Qual foi a maior delas?
Já corri com uma faca atrás do Marcelinho, dentro do vestiário. Isso começou porque fui ao programa do Roberto Avallone [Mesa Redonda, da TV Gazeta] e disse que, apesar de o Marcelinho ser o capitão oficial do Corinthians, nós tínhamos vários capitães no elenco: o Vampeta, o Rincón, o Dida, o Gamarra, o Ricardinho, eu… Todo mundo tinha nome e era capitão naquele grupo. Mesmo sendo o dono da faixa de capitão, o Marcelinho não participava muito das nossas decisões, das cobranças de premiações, essas coisas todas. Eu batia mais de frente nesse ponto. O Marcelinho não viu esse meu comentário no programa. Na manhã de segunda-feira, o motorista dele disse que eu tinha falado na TV que o Marcelinho era traíra. O Marcelinho foi se queixar com o Maurício, goleiro: “Cara, o Edílson é um baita traíra. Ele disse isso, isso e isso de mim para o Avallone”. O Maurício veio contar para mim que o Marcelinho estava falando por aí que eu era traíra. Desci para o vestiário e encontrei o Marcelinho lá. Já fui tirando satisfação: “Vem cá, parceiro. Que história é essa de eu ter te trairado? Está ficando maluco?”. Peguei uma faca que estava ali perto e avisei: “Agora você vai ver quem é o traíra!”. Ele saiu correndo pelo vestiário, aterrorizado, comigo atrás. Os caras tiveram que me segurar, mas claro que eu não enfiaria a faca nele. Foi só para botar um medo. O Marcelinho é meu amigão. Gosto pra caramba dele. Sempre que a gente se encontra, fazemos uma grande festa.

Você mantém contato com muita gente daquele time do Corinthians?
Com quase todo mundo. Falo mais com o Luizão, com quem joguei no Guarani, no Palmeiras e no Corinthians. O Sapo, como a gente chama o Luizão, é um parceiraço. Também converso muito com o Dida, por ser baiano. Claro que vários atritos aconteceram naquele elenco do Corinthians, mas não foi nada por trairagem. A gente se dá bem. Conquistamos diversos títulos juntos.

A maior dessas conquistas foi o Mundial de Clubes de 2000?
Foi o meu maior título por um time. Isso porque o torneio reuniu grandes clubes, como Real Madrid, Manchester United, Vasco, Corinthians, a melhor equipe da Ásia e por aí vai. Aquele Mundial é reconhecido pela Fifa como sendo o primeiro da história. Para mim, foi muito marcante. Ganhei e ainda fui eleito o melhor jogador da competição. Não é para qualquer um.

Todo o time se valorizou muito depois daquele título.
Até financeiramente. Fui chamado para discutir o bicho do campeonato, mas sabia que ninguém resolveria nada. Quando cheguei, no final dessa reunião, os jogadores e os diretores da Hicks Muse [antiga parceira do Corinthians] estavam emburrados. Perguntei para o pessoal o que estava pegando, e me explicaram que a Hicks não concordava em pagar tanto se passássemos da primeira fase, tanto se passássemos da segunda e daí por diante.

Quanto vocês queriam receber?
O time estava exigindo US$ 50 mil para ganhar o Mundial. Foi então que falei: “Tenho uma solução para a gente resolver esse impasse em um minuto. Quero US$ 70 mil para ser campeão”. Ninguém acreditou. Mas continuei: “Se não levarmos o título, não faturamos R$ 1. Nada é mais justo. Se não ficarmos com o troféu, ninguém merece porra nenhuma. Os caras não podem gastar dinheiro à toa”. Alguém da Hicks respondeu na mesma hora: “Está fechado!”. Cheguei no final da reunião e resolvi a encrenca. Sempre fui bom para essas coisas.

Foi suado ganhar esses US$ 70 mil?
Nosso time estava muito desgastado no Mundial. Vencemos o Brasileiro de 1999 e não tivemos férias depois. Já o Vasco não participou da segunda fase do Brasileirão. Eles passaram quatro ou cinco meses só se preparando para disputar o Mundial. Para piorar, a final foi para a prorrogação. Mas o Vasco tinha muito medo da gente. Ainda contávamos com o Dida para garantir nos pênaltis.

O jogo mais marcante não foi contra o Real Madrid, quando você cumpriu a promessa de colocar a bola entre as pernas do Karembeu e fez dois gols?
Sem dúvida. Sempre fui bastante exigente para analisar jogadores. Ao contrário do Vampeta, que gosta de todo mundo. Uns cinco meses antes do Mundial, disse para ele que o tal do Karembeu não jogava nada, que era ruim pra caramba. Falamos também sobre aquele Zidorf… É Zidorf? Seedorf, né? Bom, eu disse que esse cara também era ruim de mais. O Vampeta ficava defendendo os outros. Acontece que alguém se lembrou dessa história e publicou que o Edílson prometeu dar uma caneta no Karembeu.

Mas você deu uma caneta no Karembeu.
E não é que aconteceu? E eu ainda fiz o gol? Foi uma loucura. Marquei os dois gols do jogo e, depois, acabei sendo eleito o melhor jogador do Mundial. Tudo aquilo foi maravilhoso para mim.

Tem mais alguma recordação curiosa do confronto com o Real Madrid?
O Corinthians estava concentrado no mesmo hotel do Real, um prédio muito luxuoso, perto da Avenida Paulista, que cobrava R$ 20 mil para a diária na cobertura. Quando o Vampeta e eu fomos descer para o ônibus que nos levaria para aquele jogo, encontramos vários jogadores do Real no elevador. O Vampeta ameaçou não entrar, mas eu já me meti lá no meio. Todos os caras do Real Madrid ficaram de rosto virado quando nos viram. Mas o Roberto Carlos estava ali também, junto com Hierro e outros deles, nenhum falando nada. Então, peguei uma nota de dinheiro e comecei a dobrar muitas vezes até colocar no bolso. Falei bem alto: “Roberto Carlos, está vendo essa nota aqui? O dinheiro é igual a você. Vou te arrebentar e colocar no bolso! Você está fodido na minha mão! Vai sair humilhado do Morumbi!”. Como eu provoquei com um português meio abaianado, acho que o restante do time do Real não entendeu. Eles só ficavam me encarando de cara feia.

E você colocou o Roberto Carlos no bolso?
Não é que deu certo? Quando eu pegava a bola, o Roberto Carlos começava a fugir de mim. Era só me ver que ele corria para trás. A cena era muito engraçada. Mexi com o psicológico dele, né? A tática funcionou. Eu só tinha falado aquele negócio do dinheiro no bolso para tirar uma onda, mas deu medo nele. Reveja como foi o lance do segundo gol, com atenção. Eu fui para cima do Roberto Carlos, e ele só correu para trás. Quando cortei para dentro, ele deve ter se sentido aliviado. Aí, sobrou para o Karembeu. Meti por baixo das pernas e marquei o gol.

Quando estava no São Caetano, você também provocou o Mascherano com a ameaça de botar a bola entre as pernas.
O Mascherano exercia a função de um terceiro zagueiro do Corinthians na época. Era ele quem iria me marcar. Conversando com o pessoal do São Caetano, eles começaram a mexer comigo: “O argentino vai te pegar hoje. Você está ferrado. Não vai conseguir jogar nada”. Apostei com os meus companheiros que pagaria um jantar para todo mundo se metesse menos do que duas canetas no Mascherano no jogo. Eles aceitaram, beleza. Na primeira bola em que o Mascherano veio para cima de mim, já meti por baixo das pernas. E avisei aos caras em campo: “Já foi uma! Vou ganhar fácil!”. O argentino ficou louco. Ele caía, puxava o meu shorts, que saía todo do corpo. Na quarta caneta, ele se machucou, saiu de campo e ficou seis meses no estaleiro. Arrebentei o argentino.

Faltam jogadores com essa sua personalidade no futebol de hoje?
Claro! Não consigo ouvir as entrevistas dos jogadores atuais. O futebol se profissionalizou muito. Hoje em dia, com essa coisa de os empresários mandarem, os atletas temem sofrer alguma reprimenda. Como todo mundo tem medo de dar uma declaração mais embasada ou polêmica, o cara que sabe falar coisas interessantes acaba pagando o pato. Na minha época, era normal ter personalidade para falar. Os jogadores de agora são podados até se transformarem em robôs. Infelizmente, o torcedor brasileiro está aceitando esses jogadorezinhos.

Até o Karembeu conseguiria se sobressair no futebol brasileiro atual?
A gente tem uma cultura um pouco estranha, de dar bastante valor a quem é de fora. Cultuamos argentinos, por exemplo. Qualquer jogador que venha do exterior e tenha o mesmo nível do brasileiro, vira um Deus quando chega aqui. Tenho alguns amigos estrangeiros que são bons de verdade, como o Gamarra, que é quase um brasileiro, e o Rincón, outro que praticamente virou brasileiro depois de dar o sangue por todos os seus times. Eles deviam servir de exemplo para quem vem para cá. Mas muita gente viaja pensando em tirar onda no Brasil.

Você não chegou a brigar com o Rincón nos tempos de Corinthians? Essa invasão estrangeira te incomoda?
O Rincón foi contratado para o meu lugar no Palmeiras. E nem isso impediu a nossa amizade. A invasão dos atletas estrangeiros ao nosso país se intensificou mais agora, pois o futebol brasileiro dá visibilidade e está carente de ídolos. O Corinthians até trouxe o Frederico [refere-se ao argentino Matías Defederico] recentemente. Como o Tevez veio e deu certo, quiseram fazer uma aposta parecida.

Assim como o Tevez, você chegou a se desentender com torcedores do Corinthians antes de deixar o clube em 2000. Guardou mágoa do incidente?
De jeito nenhum! A torcida estava chateada porque perdemos a Libertadores, nos pênaltis, em dois anos seguidos, justamente para o Palmeiras. Eles foram ao clube para reclamar com o Marcelinho, por ter errado a última cobrança. Quando acabou o treinamento, vários jogadores ficaram no vestiário com medo de sair para a rua. Como a minha relação com a torcida era muito boa e eu sempre fui amigo de todo mundo, resolvi tomar banho e sair numa boa. Se você assistir às imagens daquele episódio, notará que nenhum torcedor do Corinthians encosta a mão em mim. Eu saí, a imprensa e os seguranças do clube me cercaram, e ninguém da torcida fez nada. Lógico que um ou dois aproveitaram as câmeras para aparecer, mas entrei no meu carro e fui embora numa boa.

Mas essa confusão não foi o estopim para a sua saída do Corinthians?
Mais ou menos. Eu sabia que o Corinthians estava desmontando o time e que iria se enfraquecer. O Vampeta já estava vendido, o Ricardinho e o Dida iriam sair, e não havia projeto para repor as perdas com atletas do mesmo nível. Cheguei para o presidente e falei: “O senhor está se desfazendo do time todo. Se for assim, também quero sair. Porque, caso eu continue, tudo o que eu fiz no Corinthians pode ficar manchado com más campanhas”. O Flamengo apareceu para me comprar por US$ 5,5 milhões, a maior transação entre times brasileiros na época. Mas essa já é uma outra história. Quer conhecer os meus estúdios agora?


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*Terceira das três partes de entrevista originalmente publicada na Gazeta Esportiva, em 2009. Meses depois, Edílson abriu mão da aposentadoria para jogar pelo Bahia.
**O autor enfrenta problemas técnicos.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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