Naquele mundo sonhos passavam com a velocidade de uma ampulheta tombada de cabeça pra baixo. Sabedor disso, Antonico mal aproveitava seus dias. Refugava cotidianamente. Levando a existência com a barriga, pouco sugava das relações com mulheres, amigos e familiares esperando ansiosamente pela hora de deitar na cama para poder dar de cara com o sonhar.

Saudosista que só, Antonico havia escrito suas memórias na infância para depois desvivê-las. De tanto ganhar quando pequeno, com o passar do tempo, o que lhe restava era ir perdendo. Aos 93 anos, até pouco tempo atrás lembrava-se de sua mocidade com clareza e do dia em que entregara a flor mais bonita do jardim a Marieta. Para ele, era como se estivesse entregando à garota um retrato fiel. Hoje, porém, tinha a amada do passado como um borrão impressionista de seu viver.

Como podia esquecer de sua única e derradeira mulher? Por ter conhecido e arrebatado-se com Marieta na infância, era impossível que ela fosse apagada, mesmo que involuntariamente, de sua memória. Era ciranda de nunca mais fugir da mente. Era o primeiro cheiro de bolo na casa da avó. Era o primeiro constipado depois de horas perdidas deitado na grama sentindo a chuva beijar-lhe o rosto. Era Marieta de não se esquecer.

O pior é que nem retrato havia. Nem uma folha seca guardada dentro de um livro pra se lembrar. Desde o dia em que ela havia partido, de mudança em caravana com a família inteira, fazia exatamente oito décadas, Antonico tinha 13 anos. Hoje ostentava 93. Adiava os dias em busca das noites. A forma mais branda de suportar a ausência de Marieta em todos aqueles 80 anos de vazio era enfiar a cabeça no travesseiro e sonhar com ela. Afinal, já que era um inadimplente do sentir, um devedor contumaz do viver, restava a Antonico o governar do inconsciente noturno, onde era rei de si mesmo, onde Marieta reinava soberana para ele.

Até o dia em que na fila do mercadinho deparou com uma senhora, de costas, que vestia o mesmo vestido florido usado por Marieta em seus sonhos. Haveria de ser mais um devaneio onírico? Talvez. A verdade é que, no cruzar dos olhos, viu que, sim, sua Marieta não o reconhecia mais. Sem trocarem uma só palavra, ele sabia que, no fundo, ela se perguntava: “Antonico, é você?”. Sem hesitar, ele bombardeou com pés de lã:

– Sim, Marieta, sou eu, o seu. Naturalmente você não se lembra de mim em minha plenitude. Afinal, passaram-se 80 anos… Pode partir de novo. Leva com você a lembrança de que sou uma casa caiada. Um lar que foi pintado por fora, mas por dentro, em sua essência, continua o mesmo, lhe amando silenciosamente a cada dia, como se fosse um mosaico da saudade.

 

 

Lucas Nobile, em autorretrato na foto acima, escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, convicto de que Mombojó acaba de lançar um discaço chamado “Amigo do Tempo”

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