Solidão é um eterno desgarrar do peito. Antunes se deu conta de sua sozinhez quando percebeu que até sua sombra havia partido. Era abandono de dar dó. Aos 26 anos, dos outros ele já havia abdicado havia tempos. Não palavreava com ouvidos alheios por mera opção pessoal. Cansado das punhaladas sociais do cotidiano decidiu, em silêncio absoluto, abraçar a clausura em si.

Quando firmou a ideia do não conviver, cometeu o simples deslize de não comunicar aos outros. Não tardou para amigos, familiares e Rosalina, a garota pela qual Antunes andava amorosamente perdido, saírem em devaneios à sua cata em hospitais, delegacias, necrotérios, cemitérios e em seu apartamento.

Em despiste bem armado, deixou todos seus pertences em casa e, apenas com a roupa do corpo, partiu para um quarto-e-sala muquifento que havia comprado há anos, escondido de todos. Uma semana depois, não podia-se dizer que Antunes estava feliz ou triste. Mas pelo menos era possível cravar que ele estava tomado por uma tranquilidade mais que contagiante: contagiosa. O que também não representava muita coisa, nem grandes riscos, já que ele não teria contato com ninguém.

O começo do período de clausura era de achados e perdidos. O confinamento naturalmente obrigava Antunes a desapegar-se de prós e contras do passado e a descobrir como tatear as cheganças do futuro. O primeiro palmear o fez entender que, por mais que quisesse, jamais conseguiria um isolamento completo. O ficar sozinho já era um dialogar contínuo consigo. Mesmo naquela casa vazia, em que até a respiração de Antunes retumbava, era como se ele estivesse o tempo inteiro diante de um espelho estilhaçado.

Até o dia em que decidiu calar os pensamentos que dirigia a si mesmo e fazer aflorar, até o dia de seu adeus derradeiro, apenas as lembranças de Rosalina que ele carregava com ardência e leveza no peito. As pintinhas deitadas na alvura daquela pele, o tímido juntar das mãos delicadas, o sorriso de derreter cordilheiras e o olhar de ensolarar madrugadas.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e pede a bênção ao mestre Argemiro Patrocínio

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