O Sete Doses inicia uma série em homenagem ao primeiro título mundial da Espanha.

A Espanha chegou à África do Sul como uma das favoritas ao título da Copa do Mundo, mas com a pressão de superar a sina de nunca ter disputado uma final do torneio. Assim, havia muita desconfiança sobre a equipe, mesmo tendo jogadores renomados como Casillas, Xavi e Villa.

A surpreendente derrota na estreia para a Suíça por 1 a 0 aumentou a pressão sobre a equipe e trouxe de volta as lembranças dos fracassos da seleção espanhola na Copa do Mundo, com astros e ídolos do torcedor espanhol, como Emilio Brutageño e Raúl González.

Foi nesse momento que o trabalho de Vicente del Bosque foi fundamental para o renascimento da equipe. “Nada muda”, avisou o herdeiro do brilhante trabalho de Luis Aragonés, campeão da Eurocopa de 2008 e primeiro responsável por colocar a Espanha novamente na lista de seleções mais poderosas do mundo.

Nada mudou no futebol da seleção espanhola e a derrota para a Suíça se mostrou praticamente um fruto do acaso. Dominando completamente o frágil adversário, a Espanha derrotou Honduras por 2 a 0, em jogo que se deu ao luxo de desperdiçar tantas chances de gol que a deixou com sérios riscos de ser eliminada precocemente na África do Sul.

A classificação às oitavas de final veio contra o Chile, na partida mais diferente da Espanha na Copa do Mundo. O triunfo por 2 a 1 foi o único em que a equipe não teve o controle do confronto e foi eficiente como nunca mais seria para triunfar. De normal, apenas o brilho de David Villa, autor de um dos gols e que já havia feito contra Honduras.

Veio o mata-mata e quatro demonstrações de superioridade do toque de bola espanhol, que conjugava ao mesmo tempo ofensividade e uma organização tática impressionante, que impedia avanços perigosos dos adversários em contra-ataques.

Foi assim contra o vizinho Portugal, do astro Cristiano Ronaldo. Paciência para tocar a bola até surgir as oportunidades de gol. Tranquilidade para suportar as defesas impossíveis de Eduardo até Villa superar o goleiro português.

Diante do Paraguai, Casillas apareceu e defendeu um pênalti. Xabi Alonso desperdiçou outro, mas Villa novamente surgiu para colocar a Espanha entre as quatro melhores seleções do mundo pela primeira vez desde 1950.

Nas semifinais, a Alemanha pôde apenas sonhar em se vingar da derrota na final da Eurocopa de 2008. A organização tática espanhola impediu qualquer contra-ataque perigoso ou jogada em velocidade da, até então, sensação da Copa do Mundo. O domínio espanhol foi impressionante, mas o gol da vitória saiu apenas um cruzamento, com uma testada certeira de Puyol, mais baixo do que 10 dos 11 jogadores alemães que estavam em campo.

Na inédita final, a Holanda tratou de tentar equilibrar a partida abusando das faltas duras. O toque de bola espanhol, porém, superou o estilo agressivo do adversário, que, mesmo assim, poderia ter vencido, não fossem as intervenções precisas de Casillas em finalizações de Robben. Mas, na prorrogação, Iniesta marcou o gol do título espanhol. E o futebol e seus amantes agradeceram.

Os ferrolhos e o futebol competitivo perderam a Copa para a seleção que trata a bola com mais zelo no mundo. Um estilo de tanta qualidade, que esta Espanha não ficará marcada como a campeã que tem o pior ataque e a melhor defesa da história do torneio, mas pela preocupação em reter a bola.

A eficiência espanhola não significa que a equipe apostou apenas no futebol resultados para faturar o seu primeiro título mundial. Ofensiva, a equipe teve o controle das partidas que disputou e, assim, sua defesa foi ameaçada poucas vezes. Letal, soube decidir as partidas quando teve chances.

E esse carinho com a bola, mesmo que em alguns momentos seja excessivo, só pode existir em uma equipe que pratica um futebol cerebral e técnico, com um meio-de-campo formado por Busquets, Xabi Alonso, Iniesta e Xavi, e ainda com Fabregas como opção no banco de reservas, liderados por um técnico discreto e convicto de suas escolhas e decisões como Vicente del Bosque.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

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