Separação é mudança de convés.

Quando a réstia sob a porta que invadia o quarto atendia pelo nome de desilusão, Sandoval sabia que era hora de partir, ainda que rumando ao indefinido. Diferente que só, ele era o branco no preto em Tranca Peito. O único a ranger os dentes para o conforto de um lar em plena paz. Naquela cidade, desquite era palavra mal vista. O único divórcio veladamente permitido era dos homens com as meretrizes dos cabarés.

Aos 48 anos, Sandoval fora educado em uma família sem sal, daquelas de manual. Seu pai e sua mãe discutiam respeitosamente – às escondidas, no quarto -, desfilavam evidências gritantes de que o sentimento da benquerência em sua natureza havia minguado. Amor e ódio entreolhavam-se no espelho e se confundiam diuturnamente, sem saberem quem era quem no meio do caminho. Eram nanquim e petróleo derramados em um quarto escuro. Indistinguíveis.

Naquela idade, ninguém mais precisava explicar a Sandoval que ele não nascera para levar uma vida como a de seus pais. Sabedor disso, ele seguia apenas o timão de suas vontades afetivas. Sempre escurraçado, havia deixado para trás 14 casamentos. Diferente de Vinicius de Moraes, quando Sandoval rompia os matrimônios não costumava levar seus mimos, retratos feitos por Di Cavalcanti e a escova de dentes. O desligamento com as ex-amadas era sempre a síntese de um desapego completo.

Naquela manhã de domingo, tomado pela mesma calmaria de sempre, com o auxílio de uma toalhinha branca de enxugar louça, Sandoval secava o filete de sangue que escorria de sua cabeça. Era a primeira vez que rompia com uma esposa após apanhar com um rolo de macarrão. Sem correr nem fulminar a mais nova ex com um olhar ferino-ferido, apenas encostou o portãozinho de metal que frenteava o sobrado.

O décimo quinto casamento já ruía sob os escombros. E Sandoval aprendera com o tempo a lidar mais com partidas do que com chegadas. O roteiro se repetia mais uma vez. Ele saía de casa a passos lentos em direção à rodoviária de Tranca Peito. Lá chegando, escolhia destinos improváveis e impessoais para se hospedar por um tempo e retornar para sua cidade quando os nós estivessem definitivamente desfeitos.

Pela décima quinta vez, Sandoval acordava em uma terra nada familiar. O cenário, o mesmo de sempre, mas diferente: um bordel sujo de beira de estrada. Embriagava-se nojentamente e recusava todas as ofertas carnais das moças do ramo. Escangalhava-se naquele sofá de couro rasgado apenas para relembrar da vidinha besta que levava, e para admirar as meretrizes, que divorciavam-se  todas as noites.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e trilha os passos de Sandoval com o petardo “Saudade”, de Otto

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