* Pedindo toda a proteção para o maestro Moacir Santos. Hoje completam-se quatro anos de sua morte. O texto abaixo foi publicado originalmente por mim no Caderno2, de O Estado de S. Paulo, no dia 02/08.

 

O dom da ubiquidade na música, de estar presente em vários lugares ao mesmo tempo, é para poucos. A capacidade de traduzir diversas linguagens em sons e passear por diversos gêneros com naturalidade, servindo como uma espécie de sombra para todos aqueles que vêm depois terem de tomar bênçãos, coube apenas a alguns gênios revolucionários. Um deles, nascido no sertão de Pernambuco, arrancou em 1967 para os Estados Unidos, onde poderia ser reconhecido e mostrar que sua música poderia ser todas as escolas em uma só: africana, brasileira, cubana ou americana. Hoje, completam-se quatro anos da morte de Moacir Santos (1926-2006), e o disco de estreia do Projeto Coisa Fina dá provas de que ainda há muito a descobrir sobre a obra do compositor, maestro e multi-instrumentista.

Antes de partir para a terra de Miles Davis e John Coltrane (que, por alguma coincidência operada pelos deuses da música, nasceram no mesmo ano do compositor brasileiro), Moacir já havia deixado inúmeras provas de sua prodigiosidade aqui no Brasil.

Em 1947, aos 21 anos, foi nomeado maestro diretor musical da PRI-4 Rádio (em João Pessoa, Paraíba), com a ida do titular Severino Araújo para o Rio. Um ano depois, chegando de vez em solo fluminense, Moacir entrou para a badalada Rádio Nacional, travando contato com os maiores músicos da época e colecionando histórias. A mais reveladora de seu talento precoce se deu logo na entrada para a orquestra da emissora. O maestro Chiquinho pediu que Moacir tocasse uma obra do repertório da casa. Depois de tocar, o garoto apresentou um tema de sua autoria para a orquestra. Atônitos diante de tamanha inventividade, os músicos não conseguiram executar a composição.

Tudo o que os caxias descobririam nas grades de partituras, o instinto já havia apresentado a Moacir em suas andanças. No Rio, a percepção de que ao talento inerente faltava aliar o estudo teórico, começando a tomar lições de harmonia, contraponto, fuga e composição. Como professores, a tarimba de Guerra Peixe, Cláudio Santoro, Paulo Silva, Nilton Pádua e o legendário austríaco Hans-Joachim Koellreutter.

Atestando a máxima de que para bons mestres melhores serão os discípulos, em 1962, ano em que Vinicius de Moraes, ao lado de Baden Powell, curvou-se a Moacir em Samba da Bênção (“A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos”), o pernambucano começou a dividir seu conhecimento com alunos que escreveriam seu nome na história da música: Baden Powell, Roberto Menescal, Carlos Lyra, João Donato, Paulo Moura, Airto Moreira, Dori Caymmi, Nara Leão, Chico Batera, Raul de Souza, Oscar Castro Neves e Mauricio Einhorn. Ainda no Rio, em 1965, escandalizaria com um dos discos mais raros e modernos do País até hoje, Coisas, (Forma) implodindo todos os padrões e conceitos habituais.

Dali em diante, despertando interesse de outras áreas, Moacir viu-se cercado de feras, compondo uma série de trilhas para cinema. Entre os filmes, por indicação de João Gilberto, fez Seara Vermelha, de Rui Aversa; Amor no Pacífico, primeira ligação profissional com o cinema americano; O Ganga-Zumba, de Cacá Diegues; Os Fuzis, de Ruy Guerra; O Beijo, de Flávio Tambellini; além de integrar a equipe de Henry Mancini que fazia música para filmes, e de criar a trilha com Lalo Schifrin da série Missão Impossível.

Vivendo 40 anos no exterior, aclamado por lá e pouco reconhecido por aqui, Moacir teve a oportunidade de ver o quadro de descaso caseiro mudar em 2001, graças à produção e arranjos de Mário Adnet e Zé Nogueira nos antológicos Ouro Negro e Choros e Alegria, em homenagem à obra do maestro. Agora, quatro anos após sua morte, seu legado volta a emergir com o interesse de jovens competentes, como os do Projeto Coisa Fina, em Homenagem ao Maestro Moacir Santos.

 

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

Anúncios