Revoltei-me de vez com a escola durante o segundo colegial. Era quarta-feira, estudava no Objetivo, em Jundiaí, resolvi deixar a aula de física de lado e ir para a biblioteca. Estava sentado na mesa, quieto, lendo “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoiévski (1821-1881), quando a inspetora do colégio chegou. Tomei uma das maiores broncas da minha vida e fui suspenso por um dia. Só fui retomar a leitura no terceiro ano da faculdade. Na época, tinha 16 anos, não sabia direito quem era Dostoiévski e que no futuro aquele seria o melhor livro que eu leria em minha vida. Na verdade, apenas estava interessado no nome intrigante e na capa que me chamara atenção. Mas a inspetora, cruelmente, reprimiu a minha curiosidade.

Sempre fui resistente ao desestímulo literário que a maioria das escolas impõe aos seus alunos. A aula de literatura – pensando hoje como jornalista e, quem sabe, futuro professor – era patética. Preocupada em preparar os estudantes para o vestibular, a professora colocava em tópicos os períodos e suas características: informações insossas, descartáveis e desprovidas de qualquer sentido. Decorar o que formou o estilo do Indianismo é tão importante e excitante para a formação de um ser humano quanto o ato de roer as unhas.

Muitos dos melhores alunos do colégio que eu estudava hoje odeiam ler e não se interessam por nenhum tipo de arte ou manifestação cultural. A escola formatou a criatividade e matou qualquer tipo de curiosidade que existia dentro deles. A indicação de leituras incompatíveis com a idade e com a cognição em formação levou-os a se enojarem e se assustarem ao pensar em um livro. Ler “O Memorial do Convento”, de José Saramago, no primeiro colegial, por exemplo, é quase tão absurdo quanto empossar um garoto de sete anos como presidente de uma grande empresa.

Chega a ser engraçado pensar que a leitura é imposta no colégio como simples obrigação para o vestibular e que o famigerado “programa” se esqueça de orientar o aluno sobre o que um livro significa de fato. O prazer de ter a oportunidade de encontrar nas palavras de um autor os sentimentos que ele nutria na época em que vivia, encontrar beleza estética em parágrafos bem construídos e se envolver com personagens e situações que lhe fazem pensar na vida são descartados. Tudo isso não importa? Com 18 anos, mais do que nunca, o ser humano quer pensar na vida e não em um gabarito o qual até um macaco pode escolher entre a, b ou c.

Durante os três anos do meu colegial, a inspetora insistia em dizer que eu jamais chegaria a lugar algum com a minha postura. Matava aulas constantemente, desafiava professores e discutia com colegas que só sabiam falar de carros e motores. Tenho que admitir que eu era um moleque, não faria hoje as mesmas coisas daquele tempo. Mas a tal inspetora fazia questão de jogar na minha cara como eu seria um perdedor no futuro. No fim do terceiro ano, quando passei no vestibular, ela ligou em minha casa me convidando para posar para uma foto dos estudantes que entraram nas principais faculdades do País. Entre elas estava a minha, a Cásper Líbero. Não apareci, obviamente, mas desliguei o telefone com um sorriso maldoso e sarcástico no rosto. Apesar de nunca me esforçar para concretizá-la, a vingança sempre foi um dos meus pontos fracos.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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