Pensei, no meio de um planejamento cerebrino, antes de chegar a Manaus, em escrever sobre como foi minha primeira semana. Agora, quero escrever, principalmente, sobre as minhas últimas três ou duas últimas horas. Marcantes.

  Conheci boas companhias nesses últimos dias. Mas, hoje de noite, sozinho no hotel, resolvi jantar no entorno do centro da cidade, meio desanimado. Desci a primeira rua e descobri a praça em que fica o grande Teatro. Um ET luxuoso, em estilo francês, no meio de uma cidade de milhões de habitantes brasileiros no meio da selva amazônica.

  Mas a praça é maravilhosa. Uma área aberta bem grande, com três restaurantes, meio com cara de barzinhos, além de uma barraca em que se vende o tradicional Tacacá (não conhece? Google…). Conheci o dono de um deles. Simpático, me fez sala por uns 15 minutos, enquanto eu esperava por uma mesa. Sentei pensando em jantar, e só senti vontade de pedir um sanduíche natural, bem leve. Quase impossível encher a barriga à noite no calor da cidade. Quando paguei a conta, o dono (de quem não guardei o nome) me aconselhou a voltar e pedir alguns peixes muito bons, que não estão no cardápio porque têm espinha. E gringo não sabe comer peixe com espinha.

  São muitos os estrangeiros no centro neste domingo à noite. Duas das quatro mesas em volta. Falavam, até onde consegui entender, espanhol e inglês.

  Sentado ou andando pela praça, não tem nada mais agradável do que uma brisa refrescante te abraçando na cidade quente, muito quente, abafada, lá pelas 8 horas da noite de domingo. Que delícia estar ao ar livre, ver o céu preto, preto, coberto de nuvens, tocado por essa brisa. O movimento do ar, aqui, é sempre, SEMPRE, gostoso. Um belo e bem-vindo alívio. Tão estranho para um paulistano, acostumado a se proteger, em boa parte do ano, de algum desconforto do vento.

  Adorei esse lugar. Acolhedor. Música ao vivo a cada 50 metros. Casais, famílias, turmas de amigos. Um grupo de crianças pequenas correndo em uma pista improvisada de triciclos e bicicletas de rodinhas.

  Também fiquei triste, melancólico, pensando que, apesar de muito acolhedora, esta não era a minha casa. A minha casa conhecida, com história, memórias, passado. O mais estranho, triste e reconfortante ao mesmo tempo, foi me sentir dentro e fora deste lugar, com tanta vida e, certamente, história, memórias, passado. Muito bom, interessante, mas… que saudades de tudo e todos! Em determinado momento, chegou um grupo de amigos, turistas do nordeste, talvez umas 15 pessoas, se divertindo e trocando experiências juntos. Senti inveja. Bastante. Ao menos sei que eles não poderão ver tudo que eu vou enxergar, com o tempo, na cidade.

  Agora consigo entender com se sente um astronauta, flutuando com um monte de coisas ao seu lado, no meio do espaço. É muito bom, mas é igualmente assustador.

 André Espósito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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