Bomba passava os dias amuado, na lida diária com furos e avarias dos barcos que consertava. Embora seu escritório tivesse vista e origem no mar azul-piscina das Ilhas Virgens Britânicas, o peso do trabalho que adotara por quase toda a vida o condenava a um tipo de sofrimento ao mesmo tempo físico e emocional. Ele construía e reformava tantos cascos quanto perfurava seu entusiasmo com uma atividade da qual já havia se enfadado. Sentia que era preciso temperar aquela vida. E o tempero chegou em 1976.

Cada rejeito em madeira que o mar trazia começou a ser recolhido e empilhado por Bomba na orla da pequena ilhota que habitava. Em pouco tempo, as mãos calejadas se ocupavam mais em carregar vigas, mastros e postes de luz que os remendos náuticos . Na vida simples que levava, aquele homem imaginou como converter aqueles itens desprezados em riqueza. Uma centelha de encantamento aqueceu seu espírito quando ele soube o que fazer.

Ao material empilhado, começou a dar a forma de um barracão. As ripas menores foram transformadas em prateleiras, as vigas foram reaproveitadas para dar sustentação à estrutura e os pedaços antes desarticulados de madeira formaram paredes, quadros, teto e portas. Quando terminou, seu bar estava pronto. Nomeou-o Bomba’s Surfside Shack, alcunha que lhe dava muito orgulho.

 

O barracão ficou em pé, com uma estrutura tão sólida a ponto de permitir uma resistência heroica a anos de furacões e tempestades tropicais nos anos vindouros. Mas naquele momento, faltava o principal. O bar de Bomba não tinha bebidas. Embora não tivesse nenhum dinheiro para abastecê-lo como gostaria, sua maior posse era a amizade que nutria por tanta gente nos confins caribenhos do oeste virginiano. Quando souberam do projeto do amigo, muitos camaradas o presentearam com garrafas começadas de rum, vodka e licores das piores e melhores safras. Com um bom estoque inicial, o barracão começou a receber seus primeiros convivas.

 

Animado com a popularidade crescente do bar que levava seu nome, Bomba cedeu à picardia dos turistas embriagados. Cada vez em maior frequência, os estrangeiros sorviam cada gole dos drinques com muita intensidade. Seus males e preocupações eram rapidamente enterrados na areia, enquanto cediam à desinibição. Três ou quatro drinques depois, alguns homens e mulheres desfaziam-se das roupas e dançavam, nus, os mais loucos passos em uma torrente afrodisíaca de liberdade.

 

Ciente do potencial que tinha nas mãos, Bomba começou a premiar os mais liberais. Concedia camisetas, outros drinques e a garantia do amor de seu aprceiro, seja ele fixo, ocasional ou ainda um completo desconhecido. Criou pequenos mitos. Um deles diz respeito à eficácia concepcional de seu lendário ponche. Como ele mesmo define, “if you want to make a baby, drink Bomba Punch”. O barracão tornou-se, assim, um misto de clínica de reprodução assistida, palco do concurso paralelo de garotas molhadas das Ilhas Virgens e o estágio perfeito para cada pequena redenção individual.

 

Bomba só precisa fazer mais uma coisa: lecionar.

 

Ricardo Torres escreve às terças para o Sete Doses

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