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“Passa-se com o homem o mesmo que com a árvore. Quanto mais quer crescer para o alto e para a claridade, tanto mais suas raízes tendem para a terra, para baixo, para a treva, para a profundeza – para o mal”

Friedrich Nietzsche

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Crava as unhas na terra seca e empoeirada com a ânsia voraz de criar um vazio maior do que seu próprio peito. Com as mãos em concha, desesperado, suja-se com as terras negras do chão imóvel. Em suas costas, pouco a pouco, forma-se um castelo de minúsculas partículas arenosas com tudo aquilo que o forma. Cava, mas cava com desejo, com um sentimento que julgava não mais lhe pertencer. Cava com as vísceras, com a vontade penetrante de chegar ao fundo do poço. Seu tronco superior se contorce para trás cada vez que um punhado de terra é jogado ao acaso. Seus olhos – vermelhos e trincados de sangue borbulhante – fixam-se nos restos de sujeira que sobram em suas mãos.

Só termina de cavar quando o buraco o faz desaparecer em sua imensidão, quando tudo o que era ele está preso para sempre dentro de um vazio sem fronteiras. Olha para aquele local sem paredes, sem construções ou projeções. O vazio de seu peito se une ao vazio do buraco. Eles dançam uma dança frenética e despropositada, em uma simbiose que os confunde e os funde. Tornam-se um só.

Olha para os lados e tudo que vê é nada, um oceano infinito de vazios. Fecha seus olhos e constata que as coisas não têm mais solidez ou contornos, que nada do que achava ser real de fato era.

Está esburacado.

Inerte.

Fechado em seu próprio não existir.

Desesperado, corre o quanto pode dentro do seu próprio buraco. Olha por todas as suas partes, sente todos os seus nadas, conecta-se a tudo que não pertence à coisa alguma, a tudo que é indizível e despido de símbolos e objetivos.

Percebe que cavou fundo demais…

Não desiste e continua a procurar um fim. Quando o encontra, vê-se emparedado, sem saída. Crava as unhas firmes nas paredes de terra em uma tentativa desesperada de fugir. Suas unhas – negras e sujas pelos dejetos de seu próprio vazio – sangram fluidamente um vermelho grosso que se mistura ao nada.

Sobe durante um tempo que não é tempo, um tempo dissolvido no subjetivo do que somos nós.

Chega ao topo. Lá de cima, observa – com o pescoço pendido para baixo – toda aquela vastidão de coisa alguma.

Está escuro…

Com o tempo, enxerga todos os seus pensamento e ideias em queda livre infinita. Tudo o que achava que o formava escorre para dentro de um buraco cavado por ele mesmo.

Quando se sente completamente vazio, olha novamente para o buraco, que agora está cheio de tudo que ele pensava constituí-lo. Refaz o movimento das mãos em conchas e inicia a transferência das terras secas e empoeiradas para preencher e tapar seu buraco novamente.

Despeja a terra enquanto o tempo escorre.

Joga o último punhado…

Enterra-se sem precisar desaparecer… para se redescobrir e se recomeçar.

Agradeço ao Felipe Ribeiro, designer de muito talento, pelo desenho  que ele fez inspirado no meu texto.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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