Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979)

Quem nunca estudou psicanálise tende a associar essa ciência metafísica apenas ao nome de Freud, um dos erros básicos de quem é desinformado e desinteressado. Freud criou a base teórica e prática, mas muitos dos seus conceitos, hoje, são ultrapassados e inaceitáveis. Isso não tira o mérito do homem mais genial do século XX, na minha modesta opinião. Se não fosse por ele, nossa sociedade seria ainda mais conservadora e hipócrita do que é hoje. Não consigo pensar na invenção da pílula, na contracultura e na maior aceitação dos homossexuais sem a teoria psicanalítica. Ler Freud é fundamental para quem se interessa em humanidades: é um prazer estético, já que ele era um escritor fabuloso, e uma forma de introdução ao universo emocional do ser humano. Além do que, é viagem sem volta a uma busca pela verdade.

Após a morte de Freud, a psicanálise se desenvolveu de forma impressionante. Muitos gênios apareceram, e um dos meus preferidos é Bion. Ele nasceu na Índia, mas os pais o mandaram para um internato na Inglaterra quando ele tinha apenas oito anos. Com uma vida muito difícil, além de abandonado emocionalmente pelos pais – que só lhe davam recursos financeiros –, Bion usou a experiência terrível de sua infância para estruturar sua obra. Antes disso, fez nada mais nada menos que 16 anos de terapia para entender o vazio existencial que o afligia.

Pra mim, o conceito mais interessante de Bion foi denominado por ele como “terror sem nome”. Trata-se, em resumo, da sensação de vazio e desamparo que muitas vezes sentimos sem saber bem os motivos. Aquela melancolia que bate sem explicações e, muitas vezes, se tornam mais frequentes do que gostaríamos. O que provoca esse buraco que parece impossível de tapar acontece, como em toda a teoria psicanalítica, na infância e tem uma explicação muito interessante.

Quando somos bebês, entre o zero e cinco anos principalmente, absolvemos experiências sem nenhuma racionalização. Apesar disso, temos uma sensibilidade incrível para perceber e sentir. O problema é que não conseguimos nomear essas sensações, que ficam jogadas em nosso inconsciente de forma caótica. Por exemplo, o avô de um bebê morre, os pais ficam extremamente tristes e o clima da casa fica pesado. O bebê, apesar de não saber o que aconteceu, sente todas essas emoções, mas não consegue nomeá-las. Por não conseguir racionalizar o ocorrido, a emoção é jogada no inconsciente e fica lá. O problema é que o inconsciente é atemporal e possui uma dualidade: bem e mal. Não existe meio termo. Essa sensação ruim, portanto, fica gravada para sempre na pessoa. Você cresce e essa dor continua lhe perseguindo para o resto da vida e retorna com mais força quando ocorrem perdas ou você se sente rejeitado (no fim de um relacionamento, por exemplo).

O inconsciente não é uma estrutura, uma caixinha, como as pessoas imaginam. O ser humano tem a mania de querer racionalizar e encaixar tudo em suas concepções, mas o inconsciente é algo maior, que vem da natureza, algo invisível para os olhos, incontrolável. Por exemplo, a força que faz uma árvore crescer, um rio correr e seu sangue fluir, de onde ela vem? O inconsciente também é formado por essa força: é nossa parte animal, a mais ligada com o que somos: só mais um ser que forma a natureza, como tantos outros. É tão óbvio, mas nunca pensamos sobre isso.

Para que o “terror sem nome” seja menos sentido na vida adulta, Bion afirma que é necessária uma mãe continente. Ou seja, uma mãe que entenda o sofrimento do bebê e explique a ele o que está acontecendo. Uma mãe que, com afeto, crie um vínculo e simbolize a dor do bebê, que dê a ele palavras para formar uma realidade. Ele chamou esses elementos de alfa, que vem de alfabetização. Ou seja, no exemplo do avô, o melhor seria a mãe dizer à criança o que aconteceu e por quais motivos eles estão tão tristes. Dessa forma, de maneira ainda arcaica, o bebê começaria a formar signos para entender aquela dor e assim conseguir interpretá-la. Ao invés de ficar jogada no caos inconsciente, a sensação seria transformada em uma experiência de vida. Por isso, para a psicanálise, negar a dor, jogá-la para debaixo do tapete, é ir contra a verdade. É preciso encará-la de frente para crescer.

Quando a mãe não dá essa significação da experiência para o bebê, os elementos formados são chamados de betas, que estão ligados à parte psicótica de nossa personalidade. Um bebê saudável teria mais elementos alfas do que betas e, dessa forma, estaria mais com o pé na realidade do que na fantasia. Para Bion, os elementos alfas criam uma barreira de proteção que separa o mundo externo (realidade) e o mundo interno (fantasia). Quando muitos elementos betas aparecem, essa barreira é toda perfurada e os dois mundos se confundem. O adulto, dessa forma, não percebe quem ele é e o que de fato é a realidade: as duas coisas se fundem. Quando isso se agrava muito, temos os psicóticos, que perdem totalmente a noção de realidade e vivem em um mundo próprio, sem interação real com o mundo externo.

Nas pesquisas desenvolvidas hoje, é muito difícil uma pessoa que tenha essa barreira de proteção estruturada. Na clínica psicanalítica moderna, o analista se depara na maior parte das vezes com pacientes bem regredidos, que apresentam uma barreira bastante comprometida. Bion, para conseguir estruturar a sua, fez 16 anos de análise. Eu, com apenas um ano de experiência, digo que os resultados são fantásticos.

Resumindo, a terapia não passa de uma interpretação daquilo que não foi simbolizado na sua infância. É reviver aquela dor, nomeá-la, interpretá-la e transformá-la em uma experiência de vida. Se dói? Dói muito. Mas depois que você consegue, a sensação é de uma liberdade extraordinária. É impossível para uma mãe ser tão boa que consiga nomear todas as dores de seu filho, por isso existe a psicanálise e por isso ela é fundamental para um mundo menos doente. O exemplo do avô é muito pequeno perto dos absurdos que acontecem entre os membros de uma família. Imagine quantas dores sentidas não ficam esquecidas. Parece mais fácil assim, mas o inconsciente não esquece nenhuma sensação, jamais.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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