Rosa vendia flores.

Trajava diariamente um mesmo vestido florido, desbotado como a sua pele.

Era uma mulata suja, calejada e com contornos grosseiros. Mas sabia preservar um sorriso charmoso em meio às bochechas coradas, quase sempre encobertas pelos cabelos crespos.

Seu cheiro se misturava aos dos ramalhetes que carregava diante de um cemitério paulistano. A combinação resultava em um perfume forte, capaz de seduzir os olfatos mais refinados e de afugentar os menos sociáveis.

Naquela quinta-feira de setembro, um nariz repleto de cravos repousou sobre as flores de Rosa.

Pouco se via através do vidro fosco do carro esportivo, chamativamente parado sobre a faixa de pedestres. A janela do motorista estava semi-aberta.

Rosa se aproximou do veículo. Manteve os dentes e as flores à mostra.

O homem ficou inebriado pelo odor que sentira. Chegou a se contorcer no banco do automóvel, tamanha fora a sua excitação.

Rosa ofereceu um botão de margarida.

Ele queria comprar uma Rosa. Fitou atentamente a silhueta da vendedora, com os aros dos seus óculos escuros entre os indicadores e polegares.

Ela deu um passo para trás. Foi acometida por um asco insuportável ao perceber o nariz encravado do sujeito. Semeava, enfim, a rejeição que lhe cultivavam invariavelmente.

O homem ameaçou descer à rua. O sinal verde e as buzinas de outros automóveis o impediram.

Rosa correu.

Ele engatou a primeira marcha, soltou a embreagem e pisou no acelerador com imponência. De olhos fechados.

Rosa se despedaçou sobre o capô do veículo. Sua negritude murchara no impacto com a lataria.

Restou apenas uma mancha rosada de sangue plantada no asfalto. Melancolicamente rodeada por um verdadeiro rosário de pétalas.

O perfume das flores se dissipou rumo aos céus. Subiu com a velocidade que os cravos aceleravam rua acima. E também com a sutileza que os corpos, no cemitério ao lado, desciam terra abaixo.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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