Houve um tempo em que o morrer era triste e a lágrima a parte mais marcante do luto dos que perdiam alguém. Houve um tempo em que se vivia pensando que um dia se iria morrer, como se a vida e a morte não constituíssem o mesmo não saber.  Na época, era como se a vida fosse uma etapa e a morte outra, as duas separadas pela ideia absurda de que uma não tinha relação com a outra, que eram diametralmente opostas. Vivia-se com o medo do morrer, como se aquilo significasse o fim do existir. Naquele tempo, as pessoas viviam temerosas, olhavam para os lados, pensavam que a morte era um fantasma que as rondava esperando para atacá-las. Quando alguém morria, todos se uniam para chorar em volta do corpo e apenas lamentar a partida do ente querido. Era como se a morte fosse extraordinária, como se ela nunca acontecesse, mas já se morria muito na época, todos os dias. Para eles, pessoa morta era pessoa desaparecida, sumida para sempre. Eles não sabiam ainda que a morte era um grande acontecimento, talvez o mais importante de todos. Que o fim da vida não era a morte ou nenhuma outra coisa entendível. Que o mistério do morrer era como o mistério do existir. Eles não sabiam nem o que era a vida.

Houve um tempo em que se lutava para salvar a natureza. Houve um tempo em que eles achavam que era a natureza que precisava ser salva. Não percebiam que a natureza não precisa de ninguém para sobreviver. Que a única coisa que sobrevive para sempre é ela. Na época, falavam orgulhosos em sustentabilidade com o objetivo de salvar o Planeta. Diziam que a temperatura estava aumentando demais e que isso acabaria com a natureza. Como se a natureza pudesse acabar. Eles não percebiam que se a temperatura aumentasse, no máximo existiria um deserto no lugar das cidades e que eles e os outros seres vivos desapareceriam. Não a natureza, que por ser a única coisa que de fato existe nunca morre. Em um discurso inverso, que ultrapassava o absurdo do egoísmo, eles tentavam se salvar falando em salvar a natureza, que nunca precisará ser salva. Não percebiam que eram apenas animais evoluídos que tinham o privilégio de pensar. Eles não sabiam nem quem eles eram.

Houve um tempo em que as pessoas não aceitavam o relacionamento entre dois seres humanos do mesmo sexo. Houve um tempo em que achavam imoral e errado o sexo entre iguais. Como se existisse uma regra e o homem não pudesse reinventá-la. Como se o sexo fosse definido apenas pela biologia, como se o gênero sexual não existisse, como se não fossem autores de suas próprias histórias.  Nesse tempo, as pessoas que se relacionavam com seus semelhantes eram chamadas de homossexuais, eram desrespeitadas e até agredidas. Nesse tempo, eles ainda inventavam regras para frear seus próprios instintos sem sequer saber quais eram eles: viviam neuróticos pela luta entre o desejo e a aparência. Eles não escolhiam, apenas cumpriam seus papéis sem pensar em como encaixar seus desejos dentro da realidade que realmente queriam construir para si mesmos. Eles não sabiam nem o que sentiam.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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