“Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe… Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca… Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.”

Mário Quintana

 

Castelos de cartas não precisam de toques nem ventos para ruir. Não importa como comecem a se erguer ou como terminem, eles sempre findarão em escombros. E, sobre eles, sempre restará um mero cantar de amor.

Naquela mescla de cenário medival com moderno, Nobile subiu passo a passo a íngreme escadaria daquele castelo de pedras. Era pé em peso de bigorna. Era peito arrastado como âncora. Ofegante, havia acabado de vencer um duelo montado em seu cavalo. As batalhas eram diárias e os adversários cotidianamente subjaziam ensanguentados na relva. Sendo assim, o jovem representante da nobreza sobreerguia o queixo para todos, convicto de que tudo seguia em móto-contínuo, nos eixos e nas engrenagens da paz.

Ao fim da escada, a porta se escancarou em rangidos, sem que ninguém aparentemente a abrisse. Nobile adentrou o castelo sem também saber para onde ir e o porquê de ir. Entre aposentos penumbrosos, quisera guiar-se pela própria sombra. Bastou desejar para que tochas se acendessem alumiando o percurso para o não saber.

O trilhar em modo obscuro a que Nobile estava acostumado era um vendar de olhos diário. Era vida em autoengano. Era lacuna preenchida com peneira. Era vazio tapeado, ludibriado, ignorado. Era incompletude forrada de blush.

Porta pós porta, ele enfim chegou à Sala das Almas, onde o silêncio ecoava entre berros e cochichos. Ali, Nobile se perguntou em mudez:

– Por que diabos colocaram aquela mesa oval no centro deste salão? E por que demônios as pessoas sentadas em torno dela são meus amigos, meus patrões, meus familiares e a mulher que eu amo?

Logo em seguida, um dos presentes respondeu com voz indistinguível – tanto poderia ser a mãe como o chefe do rapaz:

– Estamos aqui para um carteado. Metalinguando, ergueremos um castelo para depois derrubá-lo. É o pano da sua vida que acaba de cair. É o pastiche de encenações que acaba de ser defenestrado. É a venda dos seus olhos que acaba de ser arrancada.

Sem escolhas, Nobile aceitou a convocação ao mutirão que elevaria o castelo de sua vida, mesmo ciente da iminente implosão. A cada carta meticulosamente ajeitada na estrutura, ele intercalava lágrimas e sorrisos. Aos poucos, quando a edificação ia se concretizando verticalmente, os companheiros de mesa iam desaparecendo um a um. Àquela altura, Nobile já amparava o próprio coração em frangalhos com as mãos. Havia negado as armações do traquejo social.

Sabia que ali não poderia dar mais a seus convivas o que eles mereciam. Com a sala já vazia pelo sumiço repentino, Nobile deixou o aposento a passos calmos, mirando apenas os cadarços de suas botas negras. Depois, subiu infindos lances de escadas até atingir a torre central do castelo. Enfim, chegara onde queria. Ali do alto, sentado no parapeito, balançava as pernas e atirava as cartas ao sabor dos ventos. Era a negação de si mesmo e a ligeira impressão de que a tristeza há de bailar no intervalo entre duas alegrias.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e agradece a gentileza da querida amiga Maria Eugênia Menezes pela sugestão desse Quintana

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