Eles chegariam a qualquer momento. Tinha certeza. Perdera muito tempo sentado na privada, ainda vestido com uma calça jeans surrada, irrequieto e atônito. Precisava tomar uma atitude. Avançou em direção à janela da sala, com a precaução de pisar nos tacos de madeira do assoalho com os calcanhares, escorado nas paredes. Estendeu a mão direita cuidadosamente até a cortina, porém não conteve a curiosidade dos seus olhos. Pela fresta do tecido, observou uma senhora gorda e patusca atravessar a rua a caminho do seu prédio. Era ela?

Três meses antes, não havia reparado na mulher corpulenta que lhe entregara o Livro. Estava apressado. Apoiou-se no balcão da Biblioteca Central e indicou o número da obra do seu interesse, sem prestar atenção na pessoa com quem falava. Só ergueu a vista no instante em que a atendente subia uma escada em formato de caracol, de costas, enquanto rebolava as ancas volumosas, escondidas por um vestido escuro que se arrastava pelo chão. Recebeu o Livro, rubricou um pedaço de papel e retornou para o seu apartamento.

Respirou fundo, aliviado, assim que a senhora gorda e patusca adentrou o edifício vizinho. Cogitou voltar à privada; trancafiar-se no banheiro. Mas ali criou coragem com o gesto de enxaguar o rosto na pia – a água que agora se misturava ao seu suor tinha cheiro de ferrugem e o estranho poder de provocar ainda mais calor. Foi então que se virou para o espelho e percebeu: usava, talvez, as mesmas vestimentas de quando alugara o Livro. Deveria se disfarçar. Primeiro, tirou a calça e a cueca – ficou inteiramente nu. Depois, recorreu a uma tesoura de unha para cortar os cabelos. Arrancou alguns chumaços e deixou-se parcialmente careca. Empolgou-se ao ponto de usar a lâmina de barbear para fazer um corte profundo em cada bochecha. Estava feio e dolorido, com a cara ensanguentada. Mas  quase irreconhecível.

O telefone soou. Deveria atender? Correu novamente para a sala, com os genitais chacoalhando, e estagnou diante de uma mesa. O volume do toque aumentava gradativamente, o que confundia os seus pensamentos. Não saberia o que dizer. Decidiu pela resposta mais óbvia quando enfim retirou o aparelho do gancho.

– Alô?

– Pois não? Com quem quer falar?

“Como assim, com quem quer falar?”

– Número errado.

– Qual você discou?

“Como assim, qual você discou?”

– Foi você quem discou.

– Quem fala?

– H…

Desligou o telefone antes de terminar de pronunciar o seu nome. Supôs que os bibliotecários estivessem por trás daquela ligação. Ora, como havia sido inocente ao imaginar que mandariam uma senhora gorda e patusca para resolver o seu caso. Atrasara a devolução do Livro por mais de três meses, e não por algumas semanas. Certamente, seria perseguido pelos mais austeros livreiros da cidade, incorruptíveis e insensíveis ao perdão. Não queria nem imaginar quais seriam os castigos para o seu crime.

O interfone soou. Entrou em pânico; não haveria mais tempo para fugir. Como fora tão imprudente? Enxugou o canto do olho direito com o dedo indicador. Para cada lágrima que ele limpava, no entanto, brotavam outras três. Começou a chorar copiosamente, mas sem ser escandaloso. Temia que fosse ouvido e notassem a sua presença no apartamento. Ficou assim, encolhido, durante sete minutos. Até que escutou três batidas, bem ritmadas, em sua porta de madeira.

Apossado por uma depressão contida, engatinhou silenciosamente para a entrada de sua casa. Fechou a pálpebra esquerda e apontou a outra vista para o olho mágico. Estava escuro no corredor. Nada se via. Mas se ouvia: outras batidas ritmadas, agora cinco delas, aturdiram-no. Deu um berro estridente, inteligível. E, em seguida, fez súplicas para quem quer que fosse do outro lado da madeira.

– Eu perdi o Livro, confesso! Rogo pelo seu perdão! Eis o meu depoimento, o mais sincero possível: deixei a obra que escolhi em uma cômoda; os dias se passaram tão rapidamente que dela me esqueci – nem do título eu me recordo; e não sei mais onde está. Juro!

Gritava de uma maneira embolada. Sequer se aparentava com o conceituado advogado que era.

Mais três batidas na porta.

Trancou-se em seu quarto e foi para baixo da cama. Escondeu-se de um modo patético: nu e descabelado, sujo por lágrimas, sangue e suor. Não se mexia muito, para não fazer barulho. Vez ou outra, tornava a escutar as batidas na porta. Permaneceu ali, sem se importar com a fome e com a sede, durante dias. Foram tantos que, quando movimentou o braço e deu de encontro com um objeto, estava com a barba comprida, com um hálito insuportável e cadavérico.

Ousou checar o que era aquilo ao seu lado. Surpreendeu-se ao encontrar o Livro intacto, embora com as páginas já bastante amareladas. Abriu um sorriso tímido. Esticou a cabeça para fora da cama – àquela altura, a luz do dia lhe causava tonturas. Ao folhear as primeiras páginas, trêmulo, notou com apreensão que estavam em branco.  Espirrou ao inalar a poeira do Livro. E, por fim, recebeu a pior das punições ao ler cada uma das palavras deste conto impressas no meio da obra. A lastimável personagem central, como ele se identificou, tinha construído uma história de pouca importância.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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