Sentia o sangue rápido e a saliva indo embora, sem entender o que estava por acontecer.  A pupila dilatava e os dedos dormentes faziam parte do mesmo universo, o universo sem ele.

A notícia veio calma e em tom alto, ele não estava mais aqui. Não voltaria e nunca mais faria parte daquela história. A partir daquele momento ele desaparecera. Simples assim.

Apesar da velocidade que sumira, ao redor dela, ele continuava existindo. Falava com ele em sonhos, roubara sua escova de dente, e fazia questão de dormir quase sempre com a camisa que um dia fazia parte do corpo dele.

À noite, baixinho, ela fechava o olho e imaginava conversas com ele. Riam alto, bebiam devagar e se entendiam com apenas um levantar de queixo. Ela adorava dormir para poder conversar com ele, sentia sua pele mais quente e seu corpo mais estático.

Na calma da noite, assistiam televisão juntos, liam, comentavam o mesmo livro e adormeciam lentamente. De manhã, ela acordava sozinha e chorava sua ausência.

Não ligava mais para nada… Esquecia de comer, de beber, de viver, apenas para estar ao seu lado nas noites em que ele não estava lá.

– Tem um monstro embaixo da cama, que me mostra a realidade todo dia de manhã, me ajuda?

– Eu estou aqui por você. Sempre estarei.

Meses de noite passaram, e ela um dia não acordou. A vida era mais fácil assim.

Ana Luiza Ponciano escreve aos sábados no Sete Doses

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